“nós” contra “eles”

Andei lendo outro dia, ainda que sem a devida atenção, alguns capítulos esparsos do livro Sobre o fundamento da moral  do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. E nele fica explícita a visão pessimista com que o filósofo encarava seu tempo. Em sua teoria moral ele coloca como o sentimento moral por excelência a compaixão, que de forma resumida seria sentir no seu âmago uma grande necessidade de ajudar o “outro”. Na visão de Schopenhauer esse desejo seria tanto maior quanto maior fosse a identidade do “eu” para com o “outro”. Seria como se nesse estado o meu “eu” visse o “outro” como uma extensão de si mesmo e isso o levasse a agir moralmente para com ele. Uma visão egoísta em sua essência, mas que nos vale muito bem como ética descritiva, pois que é bem dessa maneira que as pessoas agem (ainda que saibamos que não deveria ser assim).

Mas onde quero chegar com isso tudo?
Simples. Estamos às vésperas de mais uma eleição municipal e o que vemos por aí, principalmente nas redes sociais, é a constatação prática da teoria moral de Schopenhauer. Divide-se o mundo em dois grupos: “nós” e “eles“. Onde “nós” são as pessoas que pensam da mesma maneira e “eles” são os que não concordam.

Em cidades como Guaramirim e Dionísio Cerqueira (onde estou eventualmente morando) onde apenas duas coligações disputarão o próximo pleito essa constatação torna-se ainda mais obvia. Nas ruas, nas redes sociais e até em instituições como as igrejas, percebem-se claramente olhares rancorosos e arranca-rabos lendários.

Esse processo interno que faz com que nós humanos dividamos o mundo em dois macro-grupos (os meus e os outros) é, segundo o professor de Harvard James Sidanius, um mecanismo natural da evolução. Algo que em sua opinião nem sempre se baseia em aspectos  rígidos como religião ou etnia. Muitas vezes é uma seleção baseada meramente em gosto pessoal, como por exemplo o gosto por um mesmo cantor. E apesar dessa fluidez e pequenez de pressupostos as pessoas são levadas a crer – por associação – que os “seus” são mais justos, mais éticos, mais inteligentes, mais morais ou até mais bonitos que os “deles“. Seria como se nos anos 1960 os simpatizantes da Jovem Guarda (de Roberto, Erasmo e cia) achassem os apreciadores de O Fino da Bossa (da Elis e do Jair Rodrigues) mais estúpidos e amorais   apenas por serem da bossa e não do iê-iê-iê; e vice-versa.

Para o Dr. Flavio Paranhos (PUC-GO) essa seleção “mercurial”  fruto de uma caprichosa evolução, é um comportamento que pode ser visto também em outros primatas como os chimpanzés e os bonobos. Aparentemente esse modo de agir significa uma capacidade desenvolvida pelos primatas de rapidamente identificar em quem podemos confiar e de quem devemos desconfiar.

Até por não ser necessariamente uma ação consciente, esse comportamento acaba criando alguns paradoxos, como a aparente facilidade de se mudar de grupo. Usando um exemplo citado por Paranhos, mesmo que eu seja branco e traga as marcas de viver em  sociedade pautada pelo preconceito racial, tenderei a ficar ao lado de negros, vermelhos, amarelos ou roxos em uma discussão se eles forem torcedores do mesmo time que eu. Um exemplo simples que demonstra o quão impulsiva pode ser essa “seleção” psicológica.

E em época eleitoral é possível perceber outros exemplos desse comportamento em nossa sociedade. A começar pelas coligações partidárias: independente das diferenças ideológicas que possam haver entre um PSOL e um DEM, por exemplo, ambos podem acabar se aliando e defendendo um determinado candidato, se isso fizer parte de seus interesses imediatos.

Mas o pior acaba sendo mesmo a nefasta atuação do cidadão comum durante esse período. Com atitudes beligerantes para com aqueles do “outro” lado, defendem ferrenhamente um determinado candidato como se este fosse o suprassumo da Ética, da Justiça e da Verdade, o último baluarte da Decência e do Decoro em uma sociedade viciada. Ao mesmo tempo rebaixam o adversário a categoria de opositor-espelhado: Imoral, Injusto e Mentiroso, um escroque da pior espécie.

O grande problema dessa visão está no fato de que a verdade, a justiça e a ética não são características inatas ou particularmente únicas. Para um observador isento e distante vai parecer que nenhum dos lados tem realmente qualidades, quando o mais próximo da verdade seria que ambos os lados tem lá seus defeitos e também suas virtudes. Algumas dessas virtudes talvez sejam até mesmo compartilhadas entre eles! 

Assim, percebe-se que esse comportamento insano e irracional acaba por ser um exemplo daquilo que Marx chamava de Alienação Social: “criar alguma coisa,  dar independência a ela (como se fosse um ser auto-existente) e depois se deixar governar pela coisa não se reconhecendo na obra criada, fazendo-a um ser-outro, separado dos homens, superior a eles, com poder sobre os mesmos” (ele se referia à religião, mas se aplica a tudo!).

É justamente isso que nossa sociedade têm feito. Criaram instituições políticas, como os partidos, e agora encontram-se alienados sob essas criações, dividindo seu pedaço de mundo entre os “meus” e os “deles“, e ainda que os “meus” de hoje possam vir a ser os “eles” do próximo pleito, são capazes de ir às vias de fato para defender os seus simplórios pontos de vista. 

É esse tipo de ser humano que queremos ser? Ainda há tempo para mudar. Tomar consciência da alienação dominante é o primeiro passo rumo à libertação psico-social.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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2 respostas para “nós” contra “eles”

  1. AntimidiaBlog disse:

    Schopenhauer (eu no outro) + Sartre (o inferno são os outros!) = Tolerância Zero (ninguém presta)

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