Educação Inclusiva para Deficientes Mentais (artigo)

RESUMO: Este artigo trata de um assunto atualíssimo e controverso: como educar crianças ou jovens com deficiência mental. Nele vou procurar relatar um pouco como foi que a educação inclusiva chegou ao que é hoje. Depois pretendo também me ater a analisar a Síndrome de Down e propor algumas formas de trabalhar com essa diversidade durante o processo educativo.

1 INTRODUÇÃO

O tema é atual. Educação inclusiva. Muito se têm falado sobre o tema nos dias de hoje. Muitos ainda não descobriram qual a melhor forma de educar essas pessoas ditas especiais. Essa discussão vem na verdade se arrastando a muito mais tempo do que se imagina. Veremos que houve algumas fases, alguns períodos e em cada um deles o pensamento vigente era bastante diferente do que havia sido até então.

Nosso objetivo maior como educadores que somos é encontrar um caminho em meio a essa diversidade de opiniões e conseguir consumar a nossa proposta principal que é educar a todos da melhor maneira possível.

2 MUITAS MUDANÇAS

De acordo com Nascimento (2007) os portadores de deficiência, ao longo dos tempos, foram considerados de várias maneiras e sob diferentes enfoques. Na Idade Antiga, por exemplo, essas pessoas foram associadas à imagem do demônio, bruxaria, pecado, sendo inclusive isolados e exterminados; a exemplo do que ocorria também em Esparta, na antiga Grécia e também em Roma, ode as crianças deficientes eram colocadas em montanhas ou atiradas aos rios. Ainda segundo Nascimento (2007) no início do século XIX, houve uma tentativa de remoldagem da criança deficiente, objetivando ajustá-la a sociedade. Contudo esse processo, orientado pela Igreja, que pregava a existência do pecado, tinha elementos estranhos, tais como práticas exorcistas.

Ainda no século XIX a medicina passou a conquistar espaço nos estudo de casos de deficiência. Contudo a única mudança que houve foi que agora as pessoas passaram a ser segregadas com o intuito de tratamento médico. Segundo Nascimento (2007) esse modelo médico se estendeu pelo século XX, e fez com que a educação especial passasse a trabalhar com uma visão clínica e preconceituosa da deficiência. Também nessa época houve no Brasil uma explosão de instituições de segregação especializadas, as ditas “escolas especiais”. Na visão dessas instituições a deficiência era vista como um problema do individuo, que deveria ser portanto adaptado à sociedade a qualquer custo.

De acordo com Nascimento (2007), no final dos anos 60 do século XX, iniciou-se um movimento pela integração social. Contudo na visão de tal movimento a sociedade não era modificada para a inserção do indivíduo deficiente, mas sim este deveria ser modificado visando sua adaptação à sociedade tal como ela era. Foi só a partir de 1990, com as conferência de Jontiem e a conferência de Salamanca em 1994 que os paradigmas começaram a ser quebrados. Surgiu ali a Inclusão Escolar que se mantêm até hoje como o principal foco da educação especial. E que reivindica uma transformação da estrutura social para que a pessoa com deficiência seja inserida no meio social.  

3 DEFICIÊNCIA MENTAL: COMO PROCEDER?

Após essa pequena introdução à história das concepções teóricas do conceito, passemos a parte prática de nosso artigo. Como devemos fazer para vencermos esse desafio que é a inclusão escolar de alunos com deficiência mental? Segundo Nascimento (p.42, 2007), deficiência mental pode ser definida como “funcionamento intelectual inferior à média, acompanhado de limitações significativas no funcionamento adaptativo […]” Sabemos que existem diferentes graus de deficiência. O que deixa claro que nem todas as pessoas são afetadas da mesma forma. Muitas pessoas confundem a deficiência mental com a doença mental (esquizofrenia, paranóias e outras), o que a meu ver não é correto. São fenômenos completamente diferentes. A pessoa com deficiência mental não tem surtos, não tem ataques e não tem convulsões. É perfeitamente possível conviver com ela.  Uma das mais freqüentes deficiências é a síndrome de Down. Assim passaremos a partir de agora a nos concentrar nessa deficiência em particular.

Segundo Nascimento (2007) a Síndrome de Down é uma alteração genética, que acontece no momento da concepção. Ocorre um excesso de material genético no par cromossômico 21. Assim a criança passa a ter 47 cromossomos, ao invés dos regulares 46.

Mas o que compete a nós professores fazermos para viabilizarmos a inclusão desses alunos? Eu fiz uma pesquisa bastante ampla pra compor este artigo. Li várias publicações, naveguei em sites de instituições que contam experiências que deram certo e dessa pesquisa toda que fiz, consegui tirar algumas conclusões. Em primeiro lugar, creio que é preciso abandonar a idéia equivocada de que o professor tem que se preparar para atender alunos com deficiência. Acho que não existem métodos de ensino especiais para se ensinar os conteúdos curriculares para esses alunos. O professor não tem que aprender como ensinar matemática para alunos com deficiência. Ao invés disso temos de nos prepararmos para atender a todas as crianças. O ensino escolar vai mal porque a escola continua repetindo no século XXI o que foi a escola do século XIX. Creio que é preciso entender e aceitar que cada criança tem um ritmo, tendo ela uma necessidade especial ou não. É preciso conhecer a criança sem o rótulo de uma doença. Vivemos numa sociedade que impõe padrões e se a criança não se enquadra, ela está fora, fora do mundo, fora da escola. Para trabalhar com a criança com uma necessidade especial, seja ela qual for; física ou neurológica, o professor tem que se desprender do preconceito.

Além disso, a escola precisa de um bom projeto pedagógico. Não adianta trazer a criança para a escola e simplesmente colocá-la sentada na sala. Há que se desenvolver novas maneiras para atingir essa criança. Trabalhar com inclusão numa escola dizendo que todos devem abrir o livro na página tal pode excluir ao invés de incluir a criança com deficiência mental, porque ela vai perder o interesse, vai se isolar. Uma ferramenta muito útil que creio, deveria constar no projeto pedagógico a ser desenvolvido é a informática, pois o computador é uma nova maneira de apresentar o conhecimento, provocando um redimensionamento dos conceitos já conhecidos e possibilitando a busca e compreensão de novas idéias e valores. Segundo Papert (p. 98, 1988):

São objetivos da Informática Educativa: Capacitar o aluno para o mercado de trabalho; Utilizar a Informática para reforçar aspectos psicopedagógicos; Usar a sala de Informática como local de desenvolvimento de projetos de interdisciplinaridade; Utilizar a informática como recurso didático no processo ensino-aprendizagem; Inserir o aluno no contexto da sociedade pós-moderna; Utilizar o computador como ferramenta nas tarefas do dia-a-dia.

Por esse motivo, o uso da informática com o intuito de integração destes deficientes ao mundo digital é a alternativa mais adequada, pois o uso do computador facilita a compreensão da criança sobre um determinado assunto, seja o seu próprio corpo ou meio em que vive.
Segundo Papert (1988), a presença do computador contribui para processos mentais, influenciando o pensamento das pessoas. As crianças podem ser construtoras de suas próprias estruturas intelectuais. Creio que trabalhos de informática realizados por crianças portadoras da Síndrome de Down enriqueceriam as suas possibilidades, podendo oportunizar interações diversas, no campo afetivo, humano, social, individual, que ajudarão no seu crescimento integral.

Pois acredito que apesar de suas limitações, a criança deficiente troca idéia com seus companheiros, com o professor e com o meio que vive, respeita os seus próprios limites, trabalhando no tempo, ampliando assim o seu campo mental, intelectual, enfim, seu potencial é muito grande, e cada vez mais os portadores de Síndrome de Down estão ganhando o seu espaço na sociedade, freqüentando escolas regulares e participando ativamente da vida social do seu grupo.

Assim creio que a informática, a serviço de um projeto educacional, propicia condições aos alunos de trabalharem a partir de temas, projetos ou atividades extracurriculares, sendo o computador apenas e tão somente um meio onde se desenvolve flexibilidade, criatividade e inteligências mais criativas.

Durante meu estudo sobre a Síndrome de Down, encontrei muito material disponível, casos diferenciados de Down que obtiveram mais ou menos sucesso na sua trajetória de vida. A inclusão não pode ser apenas uma utopia. E para que se torne realidade é preciso que acreditemos que é possível. Encontrei uma matéria, com entrevista do secretário parlamentar Rodrigo Marinho, um exemplo de superação, da qual transcrevo aqui um trecho extraído do site da Agência Brasil (2007):

Brasília – Um dos desafios do próximo governo na área de educação é a inclusão de crianças com necessidades especiais no sistema educacional. “Muitas crianças estão em casa porque as próprias famílias não acreditam que elas podem ser incluídas”, afirmou Rui Aguiar, oficial de educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Ceará. […] Oferecer o direito ao ensino a essas crianças, segundo Aguiar, pode ser uma forma de garantir que possam, no futuro, contribuir para a sociedade. Rodrigo Marinho, 35 anos, é um exemplo disso. Portador de Síndrome de Down, ele estudou todo o primeiro grau em escola regular. Há três anos, trabalha em um gabinete de um deputado, como secretário parlamentar. A mãe, Diva Marinho, fez questão que Rodrigo estudasse em escola regular. “Sempre criei meu filho para a vida, não para mim”, afirma. De acordo com ela, seu filho é totalmente independente. “Se algum dia ele tiver que morar sozinho, não terá problema algum.” Mas Diva já teve de tirar seu filho de uma escola particular regular, em Petrópolis, interior fluminense, por causa do preconceito. “A diretora me chamou e disse que os pais dos outros alunos falaram que iriam tirar seus filhos da escola, se ele continuasse. Então eu tirei. A gente não pode ficar em um lugar que não é querido.” Diva viveu o preconceito considerado comum pelos especialistas da área. “Muitos professores se ressentem da falta de formação e de condições de trabalhar com crianças com necessidades educativas especiais na sala de aula”, disse Aguiar.

O que mais me chamou a atenção nessa matéria foi a questão do preconceito. Além de todas as dificuldades naturais que a educação inclusiva nos reserva num caso assim, ainda temos de nos preocupar com o preconceito. Seja ele proveniente da parte dos colegas de classe, dos pais desses ou até do próprio corpo de professores. Quase chego a pensar que escolas especiais seria uma proposta que exporia menos esses alunos, pois é realmente um grande desafio incluirmos esses alunos em escolas regulares, contudo considero que esse é o melhor caminho visto que oferece a oportunidade de compreender melhor as pessoas que, por qualquer motivo, são diferentes (maneira de vestir, crenças, língua, deficiências, raça, capacidades). E sabemos também que quando as crianças compreendem que toda criança é diferente, deixam de fazer brincadeiras cruéis e podem se tornar amigas.

Mas e a pergunta: como incluir? Infelizmente ou felizmente não há uma “receita de bolo” para estes casos. As crianças com síndrome de Down, assim como outra criança qualquer, são muito diferentes entre si, tanto acerca da sua personalidade, quanto em relação aos diversos e variados interesses e habilidades. Mas como mudar o sistema sem propor uma mudança nos seus componentes? Antes de qualquer coisa entendo que fatores internos à estrutura escolar, tais como a organização (administrativa e disciplinar), o currículo, os métodos e os recursos humanos e materiais da escola são determinantes para a inclusão desses alunos com deficiência. Contudo, a figura do professor neste contexto é ainda mais relevante, uma vez que este é desenvolvedor das ações mais diretas no processo de inclusão, que são lidar com as diferenças e preconceitos por parte de pais e alunos; com as expectativas e possíveis frustrações dos familiares portadores da síndrome; com as limitações e alcances dos próprios portadores, dentre outras. Assim a pergunta maior que fica é: Será que as escolas estão realmente preparadas para uma educação inclusiva de alunos com deficiência mental?

4 CONCLUSÃO

Repito aqui na conclusão o que já anteriormente tenho dito na introdução, nosso objetivo, enquanto educadores é educar todos da melhor maneira possível. Para isso é necessário abrirmos nossa mente e procurarmos ver que nem sempre a visão que nós temos das coisas é a única coerente. Nós professores precisamos estar conscientes de nossa importância e da função que desempenhamos, no caso de ter um aluno com alguma deficiência na sala. Acredito que é na relação concreta entre o educando e o professor que se localizam os elementos que possibilitam decisões educacionais mais acertadas, e não somente no aluno ou na escola. O sentido especial da educação consiste em amar e respeitar o outro, que são as atitudes fundamentais na busca para melhor viabilizar o crescimento e desenvolvimento dos nossos alunos.

5 REFERÊNCIAS

Preconceito é maior entrave para ensino de crianças com deficiência. Agência Brasil.gov.br Disponível em <<http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/09/13/materia.2006-09-13.7466034170/view>&gt; Acesso em 14 jan. 2008.

NASCIMENTO, Débora Monteiro do. Caderno de Estudos: Educação Especial. Indaial: Editora Asselvi, 2007.

PAPERT, Seymour. Logo: Computadores e Educação. 3ª edição. Brasília: Editora Brasiliense, 1988.

__________________
Obs: Artigo elaborado em janeiro de 2008. As informações e opiniões podem portanto não corresponder a atual realidade.

 

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
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2 respostas para Educação Inclusiva para Deficientes Mentais (artigo)

  1. marcosjs1 disse:

    Texto Interessante. Gostaria que você lesse a minha opinião a respeito desse tema. Fiz uma crônica sobre isso em agosto de 2010.
    http://bocadiurna.blogspot.com.br/2010/08/educacao-inclusiva.html

  2. Tiago disse:

    Olá Marcos. Li a sua crônica e concordo a nossa sociedade como um todo é excludente.
    Eu do meu lado faço a minha parte para tornar a educação das nossas crianças a a mais inclusiva possível, mas hoje depois de 5 anos dentro de escolas vejo que as barreiras são ainda muito grandes.
    Abraços.

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