A Ética e a Ciência (artigo)

1 INTRODUÇÃO

Vivemos na era mais avançada da nossa civilização. Parafraseando nosso atual presidente, podemos dizer que nunca na história desse planeta as distâncias foram tão curtas, os milagres tão simples e os avanços tão freqüentes. A ciência e a tecnologia são a base dessa nova sociedade, surgida após a revolução industrial. Estaríamos muito próximos de um colapso total se nos faltassem as condições básicas proporcionadas pela tecnologia. Essa dependência, como não poderia deixar de ser, acaba causando sérios problemas. Tal qual enredo de um filme de ficção científica, aquilo que criamos, para nos auxiliar acaba se tornando um perigo para a nossa sobrevivência.  

Vale lembrar que ao falarmos de tecnologia estamos nos referindo a uma generalização que pode, no entanto ser subdividida nas mais diversas áreas, a informática, a engenharia, as ciências médicas e biológicas. Contudo cada uma destas tecnologias traz consigo um conjunto de problemas, sendo que temas, tais como responsabilidade, risco e autonomia são comuns à maioria delas, portanto vamos nos referir a todas elas como se fossem uma só.

Sabemos que a tecnologia nos trouxe inúmeros benefícios, mas em contrapartida ainda mais preocupação. Estudar os átomos foi importante para compreendermos melhor o mundo em que vivemos e responder a alguns questionamentos filosóficos básicos, tais como “De onde veio o mundo?”. Em contrapartida também possibilitou a criação de artefatos bélicos que já mataram milhares de pessoas e nos deixam sempre amedrontados com a possibilidade de virmos a destruir qualquer espécie de vida numa futura guerra mundial. Estudar os vírus e bactérias trouxe a possibilidade de criar vacinas eficazes contra doenças que mataram milhares de pessoas na antiguidade. Por outro lado também abriu as portas para a criação de armas biológicas por parte de terroristas e afins. E isso se repete em todos os âmbitos. A industrialização, por exemplo, na mesma proporção em que acelera a oferta de produtos, também aumenta o desemprego e os efeitos maléficos sobre a natureza, tais como poluição e efeito estufa.

Esse artigo tratará de entender qual seja o papel desempenhado pela ética nessa atual conjuntura. Parte-se do pressuposto de que não haja controvérsias ao fato de que estamos no apogeu da nossa civilização. Em que pese muitos acreditem, possamos muito mais evoluir, faz-se necessário tomarmos as devidas precauções no atual estágio em que nos encontramos para que essa evolução continue a ser benéfica ao maior número possível de pessoas.

2 A MODERNA SOCIEDADE TECNOLÓGICA

O conhecimento científico atingiu um patamar tão elevado em nossos dias que não é nem um exagero afirmar que vivemos em uma sociedade, quase que em sua totalidade, dependente da tecnologia. A ciência e a tecnologia fazem parte do nosso cotidiano de uma forma visceral, tornando-nos inteiramente dependentes dela. Segundo Bazzanella (2008) qualquer pessoa tem algo a dizer a respeito dela. Indo além, podemos dizer que o próprio fato da sociedade ter chegado à esse estágio já foi fruto do acúmulo do conhecimento científico. O que seria de nós sem uma simples televisão, sem um celular, sem um computador? Acordamos todos os dias de manhã no horário, graças à tecnologia, tomamos belos banhos de água quente, graças à tecnologia, deslocamo-nos diariamente para a escola usando a tecnologia, estudamos usando a tecnologia. Não nos imaginamos definitivamente vivendo sem ela atualmente.

De acordo com trabalho realizado por um grupo de estudantes de Portugal, disponibilizado no portal freeweb’s (2009):

A sociedade humana contemporânea, enquanto sociedade industrializada deriva em larga medida de formas e idéias genuinamente técnicas e científicas, podemos, pois afirmar que vivemos todos numa sociedade em que a tecnologia e a ciência se interligam de tal forma que se tornam mesmo indissociáveis; toda a sociedade em geral, e até os próprios cientistas estabelecem como única razão de ser da ciência a geração de aplicações tecnológicas, dizemos por isso e logicamente que toda a ciência é, na verdade “tecnociência”.

Quando o primeiro hominídeo viu que pedaços de ossos ou de madeira facilitariam a captura de animais para lhe servir de alimento, estava criada a ferramenta. O que vimos de lá pra cá foi apenas o aperfeiçoamento dessa primitiva idéia. Do osso primordial aos modernos fuzis de caça da atualidade, passando pelas lanças, flechas, mosquetões e espingardas de outrora, nada mais fizemos além de aperfeiçoar a idéia primitiva de utilizar algum instrumento para facilitar a nossa sobrevivência.

Contudo surgem alguns questionamentos. Atualmente nós “vivemos um grande dilema em relação aos usos que se fazem dos conhecimentos técnicos que a ciência nos traz” (BALZZANELLA, 2008, p. 60). Se por um lado o fuzil moderno pode ser usado para caçar animais de forma mais rápida e eficiente, ele também pode ser usado de forma violenta contra algum ser humano. No filme “2001-Uma Odisséia no Espaço”, do cultuado diretor Stanley Kubrick, essa temática é abordada nas cenas iniciais do filme. Onde aparece um grupo de primatas no exato instante do espocar da centelha criativa. Um dos hominídeos tem a idéia de criar a ferramenta. Seu primeiro uso é na caça, o que lhes garante a certeza de ter alimento sempre que precisarem, mas ao invés do uso ficar restrito à esse quesito, eles acabam utilizando contra seres da mesma espécie, no que pode ter sido a origem dos crimes à mão armada na pré-história.

Abordando a tecnologia por esse lado podemos ver que em muitos momentos da história da humanidade deveríamos ter parado e nos perguntado “Para onde estamos indo?”. Desde o Renascimento a ciência gera controvérsias. De um lado ficam aqueles que acham que tudo é  permitido em nome do bem maior que é a ciência, de outro os que temem que esse conhecimento gerado caia em mãos de facínoras que usarão em ambiciosos projetos pessoais. Os que defendem a primeira hipótese são os que acreditam na chamada Neutralidade Científica que crê serem os cientistas homens não sujeitos a ganância, ou mesmo coação de alguém com más intenções. Sobre isso escreveu Apel (1994) “[…] muitos pensam que a ciência é um saber neutro, […] No entanto, sabemos que não é bem assim; a humanidade corre riscos diante do “aprendiz de feiticeiro” incapaz de discutir os fins a que se destinam suas descobertas”. Quer dizer, é preciso refletir a cerca do papel que essas descobertas acabam tomando na modernidade.

Atualmente o debate torna-se ainda mais necessário pelo fato da tecnologia utilizada estar ainda mais poderosa e em constante evolução. Se antes existia apenas o arco e flecha, hoje temos armas de destruição em massa. Um avanço considerável, seja na tecnologia, seja no potencial destrutivo. E é aí que entra a ética.

3 AQUI ENTRA A ÉTICA

Ainda de acordo com a pesquisa dos estudantes portugueses supracitada: “Nos nossos dias um dos campos que se encontra mais carente no que diz respeito à ética é o das novas tecnologias, pois não existem leis de conduta e regras o que provoca uma aproximação do limite da ética no trabalho e no exercício profissional” (FREEWEBS, 2009).

Contudo para Chauí (2003), a ética não depende apenas de códigos escritos, podendo ser definida como o caráter ou o modus operandi de cada ser humano. Cada sociedade ao longo da história instituiu conjuntos de valores morais e éticos como padrões de conduta, de comportamentos sociais que pudessem garantir a conservação do grupo social e a integridade dos seus membros. É claro que esses valores são variáveis. Cada época tem os seus próprios questionamentos, os seus próprios valores.

Ainda segundo Chauí (2003), desde o surgimento das idéias éticas na Antiguidade clássica até os nossos dias, nós podemos perceber que, em seu centro, encontra-se o problema da violência e dos meios para evitá-la, diminuí-la, controlá-la. Atualmente a Ética surge como a regulamentadora das grandes decisões da humanidade. Vivendo numa era de relativismo moral exacerbado como a nossa, é natural que a Moral e a Ética sejam os instrumentos usados para auferir a legalidade ou veracidade das nossas ações.

Contudo, Apel (1994) alerta que, apesar das normas morais atuarem em todas as esferas da sociedade, na maior parte das vezes elas encontram-se reduzidas a questões de foro íntimo, de forma ainda mais intensa na regulamentação das relações sexuais. Enquanto que na esfera das grandes questões o cuidado com a ética e as normas de conduta encontra-se confiadas a um pequeno grupo de dirigentes. Podemos chamá-los de “Os Vigilantes”. Um pequeno grupo de iniciados que detém o controle das grandes decisões. São políticos influentes, cientistas importantes e mais alguns poderosos da Terra.

Alguns dirão que não há problema. Que essas pessoas que controlam os destinos da ciência no planeta, estão lá porque têm a capacidade necessária para lidar com essas questões e que nós, meros mortais, nem saberíamos o que pensar se tivéssemos acesso ao conhecimento por eles guardado. A solução então é apelar para a Ética. Sabemos que os códigos morais mudam com o passar do tempo, mas apesar disso, segundo Chauí (2003) todos os seres humanos obedecem a determinadas regras inflexíveis. Em que pese os códigos morais variem de uma época ou civilização à outra, existem certas regras que são universais. O respeito à vida, por exemplo. Assim, aquilo que a Declaração Universal dos Direitos Humanos instituiu ainda segue em voga. Logo temos de crer que os vigilantes deveriam tomar as suas decisões baseados nesses princípios éticos.

Mas aí surge uma pergunta: Será que os cientistas do projeto Manhattan não sabiam o que estavam fazendo ao envidarem esforços na construção da Bomba Atômica? Será que foi apenas curiosidade científica que levou o Dr. Oppenheimer a coordenar aquela equipe? Como já citei Apel (1994) é enfático: a idéia da neutralidade científica é um mito! Por mais ético que seja ninguém está livre das manipulações de outrem. O governo financiava o projeto, o governo queria uma bomba. Ok. Façamos a bomba. Na maioria das vezes não há espaço para questionamentos filosóficos.

O cientista húngaro conhecido como o “Pai da Bomba H”, Edward Teller, como bom ser humano que era, deveria ter lá a sua moral, seus valores éticos. Segundo a Agência FAPESP (2009) ele era judeu, estudara na Alemanha, mas com a ascensão dos nazistas emigrara para os EUA em 1935. Possuía doutorado em física e nos EUA se tornou professor universitário. Mas quando o governo quis montar a bomba atômica ele largou a carreira acadêmica e se juntou ao Projeto Manhattan. Seria apenas o fervor científico a sua motivação? A mesma reportagem da Agência FAPESP (2009) traz um trecho elucidativo:

Apesar de ter defendido a construção da bomba H, Teller era favorável à sua utilização como forma de poder, não de destruição. Dizia que o lançamento de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki havia sido um grande erro. Segundo ele, o melhor teria sido explodir uma bomba sobre os céus de Tóquio, jogando sobre a cidade apenas um grande clarão, mas não matando uma única pessoa.

Deixando de lado a parte de que, ele com certeza sabia que a sua bomba poderia matar, atentemos para o fato de que no caso dele, também haviam vigilantes. Ele confiava que o governo americano pensaria da mesma forma que ele. Mas não foi o que aconteceu. E esse é o grande problema. Por mais isentos que sejam esses vigilantes, por mais cristãos que sejam (Roosevelt era protestante), ainda assim nem sempre a ética estará acima das falhas morais de cada indivíduo, tais como o egoísmo, o orgulho e porque não dizer também, o patriotismo.

4 CONCLUSÃO

A ética é a balança na qual os nossos atuais detentores do conhecimento pesam as suas decisões. Vimos que existem códigos morais variáveis de acordo com cada época e cultura, mas vimos também que existem algumas regras universais e são nessas que depositamos nossa confiança. A ciência e a tecnologia hoje detêm um amplo poder em nossa sociedade e questões envolvendo elas são deixadas a cargo de quem acreditamos possuir as respostas e a neutralidade necessária para tomar decisões em nome e de todos. É claro que o fim dessa prerrogativa nem sempre é agradável, visto que as mazelas morais por vezes suplantam todo o humanismo dos nossos “vigilantes”.

Para um grupo de estudantes portugueses apenas uma união de esforços entre os nossos vigilantes pode conter os riscos que o uso desenfreado da ciência pode acarretar.

Para além do facto de algumas culturas continuarem ainda hoje à margem da ciência , para além da ciência ser limitada em alguns países por razões de ordem ideológica/religiosa, todo o restante planeta azul é dependente dela. É, portanto urgente que se tomem medidas e que os políticos do mundo em conjunto com os cientistas possam realmente reunir-se e tomar consciência de que é necessário estabelecer limites éticos a toda esta evolução desmedida, assim evitando mais riscos que possam vir a surgir. (FREEWEBS, 2009)

A ciência está aí. Caminha em pleno século XXI com as mesmas incertezas dos séculos passados. Ninguém sabe onde vamos parar, mas o fato é que, deixar que a Ética seja o ponto de equilíbrio me parece uma proposta muito frágil. Contudo, o que poderíamos fazer? Já temos nosso seleto grupo de vigilantes, fica a questão: Quem vigiará os Vigilantes

 7 REFERÊNCIAS

APEL, Karl Otto. Estudos de moral moderna. Petrópolis: Vozes, 1994.

BAZZANELLA, André. Caderno de Estudos: Métodos e Técnicas de pesquisa educacional. Indaial: ASSELVI. 2008.

CHAUÍ, Marilena. Filosofia: Série Novo Ensino Médio. São Paulo: Ática. 2003.

A sociedade tecnociêntífica. Artigo desenvolvido por estudantes de Portugal. Disponível em <<http://www.freewebs.com/tecnociencia/>&gt; Acesso em 20 jan. 2009.

“Pai” da bomba H morre aos 95. Agência FAPESP. Disponível em <<http://www.agencia.fapesp.br/materia/566/noticias/-pai-da-bomba-h-morre-aos-95.htm>&gt; Acesso em 20 jan. 2009.

__________
Artigo elaborado em 22/01/09. (Evidente pelo fato de que hoje eu já não concordaria com a Marilena Chauí, não acredito mais numa Ética inflexível comum a todos os povos. Vejo hoje a Ética apenas como imposição cultural de seu tempo, mas deixo os detalhes sobre essa minha posição moderna para um outro artigo).
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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
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