PEQUENA HISTÓRIA DO BAIRRO CORTICEIRA (artigo)

RESUMO: Este artigo pretende ser um relato histórico versando sobre uma localidade. O bairro onde eu moro; Corticeira. A história regional baseia-se no estudo de fragmentos cada vez menores da história geral e eu procurei limitar ainda mais o foco do meu artigo. Tentando fugir do factual e do laudatório, por vezes desmereço as datas exatas preferindo uma análise relativa a períodos maiores de tempo. Até porque meu material de pesquisa foram relatos históricos não-precisos, preservados apenas na tradição oral.

1 INTRODUÇÃO

Cláudia de Paiva Fragomeni (Apud Jungblut, 2008) escreve que o estudo da história regional apresenta uma série de dificuldades, sendo que uma das maiores é a falta de fontes documentais e bibliografias adequadas. Por isso obriguei-me a ir a campo, realizar pesquisas e entrevistas com quem cria poder me fornecer os dados necessários para a realização do meu artigo. Foi uma experiência fascinante. Sair da rotina é uma experiência fascinante. Fui agradavelmente surpreendido por uma série de histórias muito interessantes e divertidas sobre o processo de formação do meu bairro. Não tenho a pretensão de relatá-las todas, nem mesmo de ser minucioso nas que eu porventura contar, apenas tentarei extrair a partir desses relatos, uma base historiográfica para o meu discurso.

Quando se conversa com os antigos moradores de uma localidade adquirimos uma variada gama de conhecimento. Informações valiosíssimas sobre todos os aspectos, o único “porém” é a quase inexistência de precisão quanto as datas em que os fatos ocorreram. Para elaborar esse artigo conversei com idosos da minha localidade, que já moram aqui há mais de 60 anos. Procurei deixá-los discorrerem livremente sobre o assunto, espremendo a memória e extraindo um e outro fato. Em alguns momentos, contudo, indaguei quanto a alguma data, e na maioria das vezes eles não souberam precisar. Mas creio que o mais importante atualmente não está em se estipular datas precisas, mas sim períodos. Então vou dividir a meu artigo em três tópicos, cada um eles relativos a um desses períodos.

2 O INÍCIO

Vou começar pelo início, sim. Mas não o início que se aprende na escola. Já sabemos que toda essa região era da princesa Isabel, que seu pai D. Pedro havia lhe dado por dote de casamento, que então seu marido Emílio Jordan vendeu para companhias estrangeiras que deram início a povoação, e assim por diante. Isso é do conhecimento de todos. Eu quero partir de outro ponto, outro início e contar outra história, que no fim talvez seja a mesma, apenas com outro enfoque.

O bairro Corticeira atualmente é um bairro que está mais para residencial do que para rural. Ainda existem algumas pequenas propriedades onde vivem alguns agricultores, mas a maioria da população hoje é formada por trabalhadores das indústrias da região. Eles têm no bairro seus pequenos terrenos contendo as suas casas e no máximo um pequeno quintal. Contudo no início essa localidade foi totalmente rural como veremos a seguir. Antes, porém, faz-se necessário ressaltar um pequeno ponto. A origem do nome do bairro. Corticeira. No princípio da colonização essa região era rica em vegetação dessa espécie. Fica implícito, portanto que o nome da localidade tem sua origem ligada a esse fato.

Um dos casais que eu entrevistei para a elaboração desse artigo, Sr. Ubaldo Pasold e Dª Edeltrudes Pasold cresceu nos anos 1950 nessa localidade. Passo a relatar o que me contaram. Esta era uma área rural tradicional. Havia uma rua principal, que hoje ainda existe, na beira da qual se localizavam as casas dos moradores. Eram cerca de 20 famílias morando na região. Cada uma dessas famílias era dona de grandes porções de terreno que com o passar dos anos, o crescimento dos filhos, a morte dos patriarcas, começaram a ser divididos em pedaços cada vez menores.

A vida da comunidade era simples. Havia uma escolinha, na verdade apenas uma sala de aula, que era freqüentada por crianças de diferentes idades. Nessa época não havia igrejas de nenhuma espécie por aqui. Os serviços religiosos eram realizados na localidade de Bananal, onde hoje fica o centro da cidade de Guaramirim. Havia, é claro uma predominância de católicos e protestantes, mas já nessa época alguns evangélicos pentecostais começavam a aparecer na região.

Médicos eram escassos. Quando havia necessidade era preciso ir até a sede do município onde havia um médico que atendia os casos mais corriqueiros, mas para isso era preciso pagar. Meus entrevistados relataram que tiveram de vender um terreno para conseguirem o dinheiro necessário para fazer uma pequena cirurgia para extração de uma bola que se formara na perna de um parente deles.

Os meios de transporte eram os de tração animal. Charretes, carroças, troles, etc. Num bairro vizinho, situado ao norte havia uma plataforma onde os trens de passageiros paravam. Existia nessa época também uma caixa d’água, que servia para refrigerar as locomotivas que passavam na ferrovia que ainda hoje corta a região. Essa ferrovia vai passar a ter uma importância maior no próximo período como veremos a seguir.

A base da economia era a agricultura. Algumas famílias plantavam banana, outras plantavam arroz e outras ainda cultivavam cana-de-açúcar. Não havia máquinas agrícolas, o cultivo era todo feito manualmente. Havia dois engenhos de cana, dois alambiques e um engenho de farinha no bairro. Nessa época ainda não havia nenhum estabelecimento comercial no bairro. As compras eram feitas em dois bairros vizinhos e na sede do município de Guaramirim, recém emancipado de Joinville. Meus entrevistados relataram que têm boas recordações das viagens que faziam de carroça até a sede do município junto com seus pais para comprarem mantimentos e outros artigos que necessitassem.

3 TEMPO DE MUDANÇAS

Esse período que relatei no tópico anterior teve seu início com a emancipação do município por volta de 1950 e deve ter perdurado por quase 30 anos. Pelos cálculos que fiz baseado no relato dos meus entrevistados por volta de 1975 iniciaram-se as obras para a construção, ou implantação da BR-280 que hoje delimita o lado norte do bairro. Essas obras deram início a um novo período. Um pouco antes, provavelmente em fins da década de 1960 já se percebia uma tendência a mudanças.

Foi nessa época que a industrialização teve um salto na região norte do estado. Na cidade de Joinville já exista desde a década de 1950 a Fundição Tupy que empregava centenas de funcionários e desde sempre atraia alguns moradores da localidade. Ainda nos anos 1960 em Jaraguá do sul passou a funcionar a Weg Motores, que em poucos anos teve um enorme crescimento e também atraiu muitos moradores da localidade. O meu entrevistado, Sr. Pasold trabalhou durante muitos anos nessa indústria.

Muitos dos antigos moradores resolveram tentar a vida na cidade trabalhando nas empresas. Alguns deixavam a família morando aqui, partiam para Joinville ou Blumenau para trabalhar. Pegavam o trem, naquela plataforma que citei no tópico anterior, aos domingos e voltavam na sexta-feira ou no sábado pela manhã. (Meu entrevistado fez esse trajeto por seis meses, mas a saudade de casa fez com que voltasse a ser agricultor por mais algumas temporada. Foi nos anos 1960 que ele saiu literalmente “da roça” e se empregou na cidade de Jaraguá do sul. Suas terras, recebidas por herança, logo foram sedo vendidas aos poucos). Outros partiam com a família toda, após claro terem se desfeito das suas terras.

Os poucos que ficaram, porém experimentavam também algumas mudanças. A luz elétrica chegou por aqui nesse período e agora existiam também algumas máquinas para facilitarem a agricultura. Nesse período a pecuária passou a se fazer mais forte entre os colonos. Principalmente gado leiteiro. O comércio também passou a se fazer presente. Os maiores estabelecimentos em atividade na localidade hoje tiveram suas fundações realizadas no início dos anos 1980, portanto, ainda dentro desse segundo período.

A industrialização da região criou duas situações distintas que nos levam ao terceiro período. A primeira foi esse incipiente êxodo rural, que acarretou ainda certo abandono das terras anteriormente cultivadas. Hoje temos uma exuberante mata em vários pontos do bairro. Esta mata começou a se formar nesse período, após o abandono da agricultura. A segunda situação foi a vinda de migrantes. Com a industrialização ocorreu também a imediata valorização imobiliária das áreas urbanas do município, fazendo com que os migrantes que vinham com intuito de trabalhar na região, procurassem se fixar nas áreas suburbanas, uma delas sendo exatamente o bairro Corticeira.

 4 ÚLTIMOS ANOS

O início desse terceiro período eu o situo em meados da década de 1980. Era quando as empresas da região passavam por um ótimo momento e proporcionavam uma enorme oferta de emprego. Nessa época o número de agricultores morando no bairro diminuiu consideravelmente. Muitos haviam se mudado para áreas mais interioranas, enquanto que outros haviam vendido parte das suas terras e estavam trabalhando como assalariados nas empresas.

O intenso fluxo de migrantes, a valorização das áreas centrais e essa oferta de terrenos baratos no bairro provocaram o início da urbanização em massa da localidade. Como já disse anteriormente, hoje o bairro tem um jeito muito mais urbano do que rural. O comércio é bastante movimentado, a localidade conta também com postos de saúde, igrejas, oficinas, farmácias, enfim a evolução é incomensurável. O motivo principal foi justamente a chegada desses migrantes e o início dessa nova formatação do bairro.

Nesse terceiro período então uma parte daquela mata que se formou nos anos do segundo período foi derrubada dando lugar a loteamentos, onde posteriormente se construíram as casas dos novos moradores. Como em todo lugar da nossa nação, aqui também podemos encontrar uma diversidade cultural enorme. Existem dezenas de igrejas, dos mais variados credos e ideologias. Existem migrantes de vários lugares do país, é possível encontrar desde paranaenses e gaúchos até mineiros e baianos.

Como era de se esperar essas mudanças todas acarretam alguns problemas. Violência, criminalidade, poluição, desmatamento, etc. Mas aos poucos o bairro vai progredindo. Já se pensa até em representação política, com o número de eleitores do bairro seria possível eleger mais do que um vereador. A escola do bairro também cresce, daquela salinha de 50 anos atrás para a grande estrutura que existe hoje, houve uma grande evolução.

5 CONCLUSÃO

 Concluo aqui o relato histórico que pretendia. É claro que de forma abrangente e nem sempre profunda, mas dada a escassez de material de pesquisa e a falibilidade da memória humana, o presente artigo têm suas justificativas e serve como um paliativo.

Acredito que a história está sempre se transformando. Tenho absoluta certeza que logo ali, no futuro, têm algum historiador sério se debruçando sobre a história do meu bairro e acrescentando mais alguns períodos. A vida segue, a história está sendo feita aos poucos, nos pequenos detalhes. A história do Brasil do futuro está aqui, no passado de cada um dos inúmeros bairros que compõem as tantas cidades das diversas unidades da nossa federação. Posto isso posso declarar: A história da Corticeira é também a história do Brasil.

 6 REFERÊNCIAS

 JUNGBLUT, Cesar Augusto. Caderno de Estudos: História Regional. Indaial: Ed. ASSELVI, 2008.

CONVERSAS COM MORADORES DO BAIRRO, Realizadas no mês de Maio/2008.

Anúncios

Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
Esse post foi publicado em ARTIGOS e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s