O papel social representado pela escola e pela família (artigo)

RESUMO: Este artigo trata do papel que a família e a escola exercem enquanto instituições sociais no processo de ensino do individuo visando a organização da sociedade comum. Usei como base um artigo que já havia escrito há semanas e que versa sobre o tema. Eu o cito nas referências. Também contei com a participação e vários amigos, que através de pequenos comentários me ajudaram a formar um painel de opiniões com o tema: Família e Escola.

1 INTRODUÇÃO

Muito se tem falado sobre os papéis que a escola e a família desempenham na questão educacional, condição importante para um amplo desenvolvimento da sociedadeem geral. Oque se vê na verdade hoje é uma confusão quanto á responsabilidade que cada uma das instituições deve ter na realidade. Vamos então conceituar exatamente o que é cada um desses atores do processo social e procurar definir exatamente o que cada um tem por obrigação ou direito fazer e o que na verdade têm feito.
 

 2 SOCIEDADE

 Na página virtual do grupo espírita Nosso Lar (2007) nós podemos encontrar uma boa definição de sociedade, correntemente aceita pela sociologia:
 
É a reunião, o agrupamento de seres que vivem em estado gregário, em certa faixa de tempo e espaço, segundo normas comuns – escritas e/ou culturais, e unidos pelo sentimento de consciência de grupo e que assim se mantêm por vontade própria. Trata-se, então, de corpo orgânico estruturado pelo geral dos indivíduos, segundo as leis, a moral e a cultura em todos os níveis da vida social comum: sistema econômico de produção, distribuição e consumo, sob um dado regime político e jurídico válido para todos, independentemente de suas diferenças biológicas (cor, tamanho, biótipo), emocionais (carência, afetividade), psíquicas (comportamentos, reações), intelectuais (sabedoria, conhecimento, criatividade) e espirituais (crença, fé, sentido de vida).
 
Em outras palavras poderíamos resumir que sociedade é um grupo de indivíduos agrupados sob determinadas regras de convivência que são comuns a todos. Convém destacarmos que existem inúmeras sociedades espalhadas por todo o globo, cada uma com as suas particularidades,  entretanto todas essas sociedades reunidas geram o que eu vou chamar de a grande sociedade, a sociedade humana. Contudo para que uma sociedade realmente funcione, seja ela local ou universal,  é necessário que aja uma organização. E nessa ordem das coisas então cada indivíduo ou instituição têm um papel importante a desempenhar.
 
Em nosso estudo nós não vamos analisar a sociedade como um todo, mas vamos nos deter apenas no processo social da educação, já que esse é um elemento presente em todas as sociedades além de ser uma das condições elementares para o bom funcionamento de qualquer organização social. Assim, de todos os indivíduos ou instituições que formam uma determinada sociedade vamos separar apenas duas: A escola e a Família.
 
 
3 FAMÍLIA
 
A página virtual Racionalismo Cristão (2007), traz uma afirmação geralmente aceita por todos: “A família é a base da sociedade”. Isso é correntemente aceito porque esse é o primeiro contato do indivíduo com a sociedade. Podemos afirmar que a família seja uma sociedade em miniatura, uma réplica perfeita que reproduz fielmente as noções de vivência em comum, bem como toda a série de regras que regem a sociedade universal. Para Tura (2002) “o indivíduo nasce como uma tabula rasa e cabe à sociedade, pelos meios mais rápidos possíveis, agregar ao ser individual egoísta e associal – uma natureza moral e social”. E sendo então a família o primeiro contato desse indivíduo com o “sistema” uma grande responsabilidade fica assim a cargo dela.
 
A partir dessa premissa, eu fui á campo recolher a opinião de indivíduos diretamente ligados á área. E isso engloba o mundo inteiro, salvo exceções, afinal a maioria das pessoas vem do seio de uma família. O recurso que eu utilizei foi uma espécie de fórum que abri em meu blogue na grande rede (THE BOOKS ON THE TABLE, 2007). E as respostas chegaram. Vamos então á elas.
 
A advogada carioca Renata Fern escreveu que:
 A família é o núcleo social. Penso que é o maior alicerce que uma pessoa pode ter na vida. A escola é um complemento importantíssimo, um espaço de desenvolvimento. Mas é dentro de casa que devemos aprender valores morais e na escola apenas amadurecer ainda mais, uma contínua ação. A escola não pode fazer a vez dos ‘pais’. Mas este assunto é realmente delicado. Hoje em dia os pais esperam das escolas o suporte que eles não podem dar. O tempo é escasso e pra piorar ainda mais a situação a escola como instituição educadora deixa muito a desejar na maioria das vezes. Fazer o que? Este é o impasse da nossa realidade, como formar cidadãos?”
 
A amiga Glinys Christ escreve:
 A Família é a responsável pela educação dos filhos tendo mais diálogos, limites no seu dia a dia! As entidades entram na educação oferecendo escolas decentes pagando melhor os professores para que possam trabalhar com mais AMOR, para que volte o RESPEITO entre os alunos e os professores e vice-versa, enfim quem sabe um dia isto poderá acontecer! É difícil, mas não impossível temos que cobrar mais e mais dos nossos GOVERNANTES!
 
Já o agitador cultural Carlos Senna Junior afirma que “Em família aprendemos valores, na escola colocamos estes valores em prática, e aprendemos letras, matemática e etc. A família e a escola se completam em educação, cada um com a sua parte”.
 
A estatística carioca e mãe de duas filhas universitárias Denise Marques falando de suas experiências diz:
 Noto que a família nos moldes da minha geração (aquela que tem agora os filhos na faixa 23/30) mudou muito. Afrouxaram-se os limites e os valores em prol da diminuição de “traumas”. Ao mesmo tempo em que aproximou pais e filhos com a diminuição do rígido respeito, novas regras não foram estipuladas. As mudanças sociais e tecnológicas avançaram rápido demais: mães trabalhando fora, televisão acessível, telefones, carros, computadores. A educação em quase todos os aspectos (inclusive o moral) foi “empurrada” para os professores e colégios, com pouco resultado e eficiência. Um espírito competitivo que apenas leva em conta o ter material e o aparentar surgiu.
 
A telefonista carioca Ana Carvalho fala que houve uma mudança muito grande na forma como os papéis vinham sendo representados. E completa que essas mudanças foram:
 com certeza pra pior! Os pais de hoje não sabem mais educar seus filhos e esperam que a escola o faça! Com os novos parâmetros de educação sendo colocados em discussão por psicólogos e terapeutas de família, perdeu-se o que se chama de limite, e tanto as crianças como os pais ficaram perdidos! Essa questão é bem complexa e dá um texto e tanto! Basta observar que no tempo dos nossos avós os filhos respeitavam mais os pais! Em minha opinião só uma coisa melhorou e foi a questão da autoridade que, antigamente era mais como ditadura, os pais falavam e os filhos não podiam questionar, se não tivesse sido tão exagerada essa “abertura”, eu diria que essa mudança foi ótima, pois trouxe o diálogo, que é sempre bom!
 
Já a poetisa portuguesa Luíza Mota dando seu parecer de mãe preferiu fazer suas as palavras do Carlos Junior: “Em família aprendemos valores, na escola colocamos estes valores em prática”. Reafirmando assim mais uma vez o caráter complementar de uma á outra instituição.
 
A psicóloga Rose Carrara deu o seguinte parecer:
 Família é o sustentáculo para um ser humano crescer saudável mental, física e espiritualmente. Os valores principais que aprendemos em família são: o respeito, a dignidade, a fé e principalmente o seguir o caminho sentindo que atrás de si tem uma força que impulsiona. Na vida adulta quando preciso de forças volto para essa fonte que me abastece.
 
Já a escritora paulistana Madalena Barranco afirmou que:
 a educação precisa vir da família, que anda sofrendo com mães e pais ausentes. Eu vejo muitas crianças que passam o dia todo com a empregada e outras, soltas pela rua a mercê do perigo, entre outros fatos que você já sabe, pois é notório nos jornais. Por isso, eu acho que a escola é importante SIM, mas para complementar e construir sobre os alicerces que a família construiu.
 
Para meu amigo Ricardo Calmon:
 A Base de tudo é a família sim, mas o sustentáculo, o desenvolvimento da aprendizagem, a educação como um todo cabe a essa casta magnífica de mestres que ainda em país nosso não dão o mínimo valor, se dessem, esses mestres mesmos poderiam através da escola, estender à família tudo o que vivem e nutrem em cardíacos seus: a EDUCAÇÃO.
 
Com base nesses comentários eu chego a conclusão de que o papel da família na sociedade deve sempre ser o de auxiliar a escola na hora de educar. A correta ordem das coisas então seria a família como o primeiro estágio onde as crianças aprenderiam as bases da convivência social. Como bem disse Carlos Senna Jr. a criança passaria a ir à escola para aprender matemática, português, geografia, história e ciências. Ficando então com a família a incumbência das matérias elementares, morais e sociais.
 
E o que está ocorrendo em nossos dias é uma indisposição da família para exercer seu papel. Mas também é mais do que apenas falta de vontade. Há certa necessidade. Imaginemos uma família tradicional, pai, mãe e dois filhos em idade escolar. O pai trabalha, mas o salário dele já não  consegue manter um padrão de vida confortável. O que acontece então? A mãe consegue um emprego também. Façamos de conta eu os dois trabalhem então no horário de expediente normal. Assim das 07 horas da manhã até ás 18 horas essas crianças estarão sem a figura dos paisem casa. Emum dos períodos, digamos que de manhã a filha do vizinho, que tem 15 anos fica com eles e á tarde eles vão para a escola. O que os pais vão esperar da escola? Que ela supra a ausência deles ensinando aquilo que eles deveriam estar ensinando.
 
  
4 ESCOLA
 
Dando prosseguimento a essa minha nova forma de confeccionar meus artigos eu vou relatar agora uma conversa que tive com o professor Francisco Sobral durante uma aula do curso de Metodologia do Ensino Interdisciplinar. Destaco que ele é professor universitário e doutor em Educação pela universidade paulista UNICAMP. Nessa conversa que tivemos, ele falou sobre o surgimento da escola nos tempos da Grécia antiga. Segundo ele foi lá que surgiu a figura do paidagogos, que era um escravo que tomava conta das crianças enquanto os pais delas, os homens livres filosofavam na praça (Segundo Sobral é devido a esse início escravocrata que a figura do professor não é ainda valorizada como merece). Como era de se esperar esses professores precisavam de um lugar onde estar com seus pupilos, aí surge então a École, que significava “lugar de ócio”, já que basicamente era isso mesmo. Uma espécie de playground arcaico.
 
Contudo com o passar do tempo a função desse pedagogo mudou e essa primitiva escola passou a ser usada então para algo mais que passatempo. Segundo Sobral noções de conhecimentos gerais, álgebra e filosofia passaram a ser ensinadas na École. Dando crédito então ao que ele diz, posso afirmar que a escola hoje não é muito diferente daquela à época. Teoricamente já não existem mais resquícios dessa antiga escola, mas na prática vemos que a escola hoje é para muitos alunos um lugar onde eles podem ir e se divertirem, um local onde encontram colegas com os mesmos interesses, ou com a mesma falta de interesses. E vemos também professores que se comportam como verdadeiros escravos descontentes. Não mais ensinam por prazer, mas por obrigação. Ensinam, ou tentam, porque essa é a profissão que eles escolheram.
 
Mas e qual o papel que essa escola tem então de desempenhar na nossa nova sociedade? A professora Maria Tura, em seu artigo “Durkheim e a educação” (Apud Silva & Paulini, 2007), citando Durkheim, fala de Educação Moral e Educação Profissional. A primeira seria então a forma de conferir o gosto pela vida em coletividade ao indivíduo, levando-o a desenvolver o costume de pensar e agir de acordo com seus concidadãos. Já a outra, seria ensinar uma profissão, ou ao menos dar condições para que cada sujeito consiga adquirir um meio de sobrevivência. Eu não sou muito fã da sociologia de Durkheim, acredito que a educação moral tal como ele a define deve ser atribuição da família. Contudo pelo que vejo a atual organização do nosso sistema de ensino, da margem para essa interpretação. O papel social da escola hoje é formar cidadãos e profissionais. Educação moral e educação profissional. O que acontece porem é que muitas vezes ao acumular essas duas funções a escola acaba deixando de se aprofundar. Falta tempo para conciliar essas duas atividades.

 

5 CONCLUSÃO

Que falta mais envolvimento da família todo mundo está cansado de saber. Os pais estão passando para a escola toda a obrigação de educar os filhos. E como se sabe, há um limite. A escola como anteriormente vimos, deve ser uma instituição criada para transmitir o saber científico. Noções de comportamento, vivência em sociedade, respeito ao próximo, higiene pessoal, alimentação saudável devem ser aprendidasem casa. Ouseja, a escola tem gasto muito tempo desempenhando funções que não são suas. Assim quando chega o fim do ano o que se vê são alunos que tiveram apenas dois terços do conteúdo que estava previsto no início do ano e que aprenderam de verdade apenas um terço desse. Quer dizer, um terço de dois terços de um total que mesmo inteiro não é suficiente. É um resultado muito insatisfatório.
 
Mas e agora? O que fazer para devolver para a família o seu papel? Eu estou aqui falando do ensino público. Quem estuda em escola pública? Filhos das classes menos favorecidas. Pra mim não existe classe média. Ou se é elite ou não se é! Pobre não estuda em escola de rico e vice-versa, salvo, claro as exceções. Assim torna-se necessário perguntar: Por que a família passou a bola pra escola? Resposta: Porque foi necessário. Eu estou falando aqui da minha realidade, daquilo que vejo ao meu redor. Talvez em outro lugar seja diferente, talvez se eu analisasse isso do alto de um condomínio de luxo no Morumbi em São Pauloeu tivesse uma visão diferente. Talvez. O fato é que a família tal como a gente conhece está mudando. Aquele núcleo familiar pai-mãe-filhos em muitos casos deixou de existir. Temos hoje crianças que vivem com os avós, outras que vivem com a mãe e o amigo da mãe, outras ainda com os tios (Será influência das revistinhas da Disney?). E mesmo nas famílias que ainda tem a estrutura tradicional são raras às vezes em que as partes desse esqueleto estão juntas. O mundo moderno impõe um ritmo forte às relações sociais. Agora papai e mamãe trabalham fora e só tem tempo de estar com os filhos nos finais de semana. Assim o que fazem? Exigem a criação de creches em período integral e desde a mais tenra infância dos filhos delegam suas funções de pais para as “tias”. À medida que o tempo vai passando cada vez mais eles se escondem atrás das suas vidas e repassam para a escola a obrigação de criar seres humanos. A escola não foi feita para isso. A escola foi feita para educar seres humanos.
 
Recentemente o ministro da educação Sr. Fernando Haddad deu uma entrevista à revista Veja, da qual cito de memória uma frase onde ele colocava o envolvimento familiar como condição fundamental para o desenvolvimento de uma educação de qualidade no país. Assim indago: Como o ministro da educação vai fazer para devolver o papel da família a ela? Será que vai aumentar o salário que o papai recebe deixando assim a mamãe livre para cuidar dos filhos? Poderiam chamar essa visão de machista, não seria de todo errada, nem correta. Machismo seria dizer que as mulheres não são capazes de desempenhar funções masculinas. A prática demonstra claramente que por vezes elas são até mais competentes que os homens. O que não se pode negar é que uma mulher dentro de casa, junto aos filhos é ainda uma poderosa arma na correta organização da sociedade. Mas para não me chamarem de machista posso propor o contrário. Remunerem melhor as mães e liberem os pais. Só que a bem da verdade quando eu falo em educação familiar eu tenho as duas figuras em mente. Pai e mãe. É preciso criar uma forma de ter os dois junto aos filhos durante mais tempo do que temos na atualidade. E agora, qual será a solução do ministro?
 
A professora Gilda Lück (Apud Silva & Paulini, 2007) escreveu um texto no qual defende uma opinião que é também a conclusão a que eu cheguei. Diz ela que se esses dois núcleos (família e escola) funcionarem como catalisadores e operacionalizadores do desenvolvimento individual, as aptidões naturais das pessoas poderão ser transformadas em habilidades, sejam estas comportamentais, atitudinais ou técnicas, e o conjunto dessas habilidades poderá logo após ser então transformado em competências.
  

6 REFERÊNCIAS
 
NOSSO LAR. Eu e a Sociedade. Disponível em <http://www.nenossolar.com.br/ciencias/eusocied.html>. Acesso em 05 nov. 2007.
 
RACIONALISMO CRISTÃO. A família é a base da sociedade. Disponível em <http://www.racionalismo-cristao.org.br/familia.html >. Acesso em 05 nov. 2007.
 
SILVA, Everaldo da; PAULINI Iramar Ricardo. Sociologia Geral e da Educação: Caderno de estudos. Indaial: Asselvi, 2007.
 
THE BOOKS ON THE TABLE. Preciso de ajuda!!!. Disponível em <http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=4423&post=9806>. Acesso em 06 nov. 2007.
 

OBSERVAÇÃO: ESSE ARTIGO FOI ESCRITO EM NOVEMBRO DE 2007 E É AQUI PUBLICADO SEM NENHUMA REVISÃO OU ATUALIZAÇÃO, PORTANTO ALGUNS DADOS PODEM ESTAR DEFASADOS.

Anúncios

Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
Esse post foi publicado em ARTIGOS e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s