O Fascismo Hoje (Artigo)

Para comemorar o Dia da Independência publico um artigo escrito anos atrás sobre o fascismo na atualidade. Neste artigo procuro conceituar o que de fato foi o Fascismo histórico e também analisar quais seriam as causas para termos hoje tanta disparidade no que se refere ao conceito de fascismo. Enquanto muitos julgam ser esse um movimento extinto, outros o vêem em cada esquina ou nota no jornal. Partindo de uma pesquisa bibliográfica sobre o conceito, esse artigo é uma singela tentativa de lançar luz sobre esse obscuro assunto.

Palavras chave: Fascismo; Interpretação; Conceito.

INTRODUÇÃO

De vez em quando ouvimos alguém dizer que fulano ou sicrano é fascista, que o governo desse ou daquele presidente está se tornando um epíteto fascista, entre outras coisas mais, todas envolvendo a palavra fascismo e seus derivados. O que de fato se nota é que há uma banalização desse termo. O uso da palavra fascista, muitas vezes carrega um sentido que em nada lhe é peculiar. De acordo com Dauwe & Sayão (p.61, 2009) o conceito de fascismo é “tão carregado ideologicamente que se torna muitas vezes vazio de conteúdo […] sendo usado para designar qualquer posição política ou ideológica com a qual não se concorde”. Esse artigo trata de dar a significância original para esse termo e assim desfazer mais um dos muitos erros etimológicos ou conceituais da presente era.

O QUE É FASCISMO?

Hoje em dia vivemos na era da generalização. Parece que falta base histórica, ou qualquer outro subsídio para muitas pessoas, aí aplicam conceitos errados, em horas indevidas e em situações incorretas. Com o termo fascismo, não poderia ser diferente. Como bem citei na introdução, qualquer sistema político com o qual não se concorde é logo taxado de fascista. Qualquer ameaça de coerção da liberdade é vista como manobra fascista. É comum ouvirmos que a polícia age de maneira fascista, que o governo do presidente Lula está descambando para o fascismo, etc. Mas o que vem a ser o fascismo? Dauwe & Sayão (p. 65, 2009) sintetizam muito bem no que consistia o fascismo

O fascismo consistia, essencialmente, em um movimento reacionário, de caráter antiliberal, antidemocrático e anti-socialista, que tentava submeter a vontade individual, vista como perigosa e causadora das grandes mazelas sociais, aos interesses da coletividade. Isso significava, dentro dessa lógica, submeter o indivíduo inteiramente ao poder do estado, uma vez que na terminologia fascista, Estado e sociedade são termos intercambiáveis. Esse Estado seria baseado na autoridade suprema de um líder (Führer, em alemão, Duce em italiano), que representaria a alma da nação e conheceria os anseios do povo.

De acordo com Geocities (2009) o fascismo italiano defendia o uso da força para tomada do poder, imposição aos civis de uma ordem e disciplina militares, supressão da liberdade de imprensa, controle total do Estado sobre a economia e outras atividades sociais, além do pensamento único em torno da figura de um líder absoluto e carismático.

Quer dizer, o fascismo como teoria política se resume naquele determinado período histórico. Surgiu com Mussolini e teve seu fim em 29 de abril de 1945, conforme relata o site Geocities (2009), que ainda completa “Depois disso, poucos governos ousaram assumir explicitamente os ideais fascistas”.

Contudo, além do fascismo italiano

No século XX, Itália, Alemanha, Espanha e Portugal experimentaram regimes declaradamente fascistas. Na América Latina, África e Ásia, ditaduras militares de esquerda e direita adotaram veladamente características fascistas, sobretudo depois de 1945, com a derrota do Eixo (Itália, Alemanha e Japão) para os Aliados (Inglaterra, França, URSS e EUA). (Geocities, 2009)

Acredito que no próprio Brasil, Getúlio Vargas foi o representante fascista. É justo afirmar que a Ação Integralista era notadamente fascista e o populismo de Getúlio em nada ficava devendo à Mussolini ou Hitler.

Também o governo populista de Perón na Argentina carrega as mesmas características do governo getulista, o que nos leva a concluir que o fascismo assumiu em cada lugar as características próprias da cultura daquele país, sendo muitas vezes catalogado por outros nomes que não fascismo, carregando em si o gene fascista sem, no entanto ser imposto ou assumido como tal.

Na atualidade o conceito de fascismo anda sendo deturpado. Frequentemente ouvimos falar de fascismo em um contexto totalmente equivocado. A que se deve isso? Primeiramente à essa mania de generalização que nós temos, mas sobretudo a interpretações reducionistas.

Que reducionismo seria esse? São três as principais interpretações reducionistas: A redução do fascismo ao Entre Guerras; A redução ao Nazismo e a Redução ao Hitlerismo. Além disso, há ainda o fato do desconhecimento total do assunto por parte de muitas pessoas aliado ao costume de se taxar determinado regimes ou políticas públicas como totalitárias, fascistas, de esquerda ou de direita, isso tudo através do senso comum.

Contudo, não para por aí. Podemos dizer também que há um processo de desinformação sobre o que de fato foi e é o fascismo. De acordo com Dauwe & Sayão (2009), as origens desse processo de desinformação surgiram após o fim da guerra quando “argumentações enganadoras […], foram criadas e difundidas por historiadores, no período da guerra fria, com a finalidade de consolidar a imagem e o poder do bloco político comandado pelos EUA, frente ao comandado pela URSS”. Esse processo visava certo esquecimento do alcance do fascismo nos países agora aliados aos EUA. Assim acabaram restringindo o fascismo à Alemanha nazista. Sobre os demais países, ou até mesmo sobre as participações individuais no nazismo ou nos movimentos fascistas em geral, fez-se um profundo silêncio.

CONCLUSÃO

Podemos concluir então que o fascismo histórico que atendia pelo nome de fascismo, morreu juntamente com Mussolini em 1945. Contudo de lá pra cá a teoria fascista continua ativa, embora seus seguidores não se denominem fascistas, ainda assim, de fato o são. A causa da disparidade entre existir ou não, ser ou não fascista está em parte no processo de desinformação perpetrado pelos Aliados após a segunda guerra, processo este que gerou então pressupostos falsos que permitem que as pessoas hoje desconheçam o real alcance do fascismo e o verdadeiro contexto em que a palavra pode ser usada para definir algum comportamento totalitário ou não. Daí vem o fato de ser comum ouvirmos as pessoas julgarem isso ou aquilo como manifestação fascista, tanto quanto julgarem que o fascismo é um movimento morto e enterrado. Visão essa que Dauwe & Sayão (2009) desmentem, “as ondas de violência neonazistas que ocorreram durante a década de 1990, dentre outros fenômenos, demonstram que isso não é verdade”, é possível concluir então que o fascismo ainda está vivo e atuante na modernidade.

REFERÊNCIAS

DAUWE, Fabiano; SAYÃO, Thiago Juliano. Caderno de estudos: História comtemporânea. Indaial: Ed. ASSELVI, 2009.

GEOCITIES. Fim do fascismo. Disponível em <http://br.geocities.com/discursus/archistx/fascihis.html> Acesso em 12 mar. 2009.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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4 respostas para O Fascismo Hoje (Artigo)

  1. Vitor VEC disse:

    Alguns problemas para revisar:
    Primeiro, o fascismo foi muito socialista; sempre. Ou por acaso achas que ‘submeter a vontade individual… aos interesses da coletividade’ é outra coisa que não socialismo? As teorias políticas ao longo do século 20 fizeram questão de separá-los, especificamente colocando um à esquerda e outro à direita do espectro político, mas o fascismo tem muito de socialismo.
    Segundo, assemelhar o populismo latino-americano ao fascismo é discutível. Ambos tinham líderes carismáticos e economias voltadas para o desenvolvimento tecnológico nacional, mas diferiam em temas como o belicismo observado na Itália e na Alemanha e a hierarquia e distribuição espacial urbana e rural desiguais que perdurou dentro do fascismo em face a tentativa de formar nações espacialmente melhor distribuídas na América. Veja-se como exemplo disso a diversificação de polos industriais em regiões até então pouco desenvolvidas como a cidade de Córdoba, a província de Chubut, a serra gaúcha e o Espírito Santo.
    Por último, associar Vargas ao movimento Integralista pois este movimento tomou fôlego na revolta paulista de 32, justamente contra o governo Vargas. É claro que as conveniências políticas fizeram que alianças em torno do presidente fossem costuradas, mas no período democrático seguinte combatiam Vargas e a maioria deles encontrou abrigo sob a asa da ARENA pós-64.
    E era isso, saúdos,

    • Tiago disse:

      Olá.
      Concordo em parte com seus apartes, principalmente quando se refere a participação da AIB no governo de Vargas e a comparação com o populismo sul-americano. .
      Novas leituras estão dando uma visão diferente sobre o tema, mas como não tenho uma opinião conclusiva a respeito, por ora não vou modificar o artigo, afinal ele reflete uma opinião que defendi há 4 anos. Assim espero num momento oportuno voltar ao tema e quem sabe reescrevê-lo.

      Sobre o fascismo ser socialista, sou obrigado a discordar. Hitler e Mussolini tiveram sim muitas medidas populistas que agradaram o proletariado, mas em suma eram regimes autoritários com um pé e meio no capitalismo!
      O fato de ‘submeter a vontade individual… aos interesses da coletividade’, como dizes, servia bem como teoria, pois na prática não havia coletividade e sim o interesse individual do líder.
      E não percebo semelhanças entre o fascismo e o marxismo, talvez com o socialismo soviético, que eu particularmente diferencio do marxismo.

  2. Pingback: O Fascismo Hoje (Artigo) | Baú das Relíquias

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