O VOO DA CIGARRA

Gosto tanto de escrever.

Gosto tanto de ler.

Gosto tanto, mas quando mais preciso menos isso faço.

Meus livros de Educação me aguardam.

Minhas resenhas imploram por ser escritas.

Mas nada faço. Eu não tenho a vontade mínima, que me faria

Levantar e ler.

Levantar e escrever.

Levantar!

Tenho a louça do almoço pra lavar.

Eu ainda estou sem jantar.

Na cabeça os planos que minha mulher deixou.

Tenho tanto a fazer, mas pouco faço.

Faço pouco caso de quem tudo hoje faz;

Se existe o amanhã, pra que tanto stress?

Tenho vinte e poucos anos.

E o mundo não está sendo generoso comigo.

Enterra meus planos de morrer aos vinte e sete.

O que fiz de bom pra merecer isso?

Poemas?

Canções?

Artigos?

Filhos?

Não tive tempo. Preciso de mais…

E…

Faço pouco caso de quem não o tem.

Eu até tenho, mas o que faço com ele?

O comprimo. Cabe na palma da mão.

Enfio no bolso. E o perco por aí.

(Como os trinta reais que caíram da minha jaqueta junto com um bombom.)

Por um momento pensei batom…

Meus gostos me traem.

Atraio o olhar das meninas quando passo.

Mas não passa disso.

Nada quero além disso.

Meu casamento não vai mal.

Mas a louça me oprime.

Eu reprimo a vontade de formular uma desculpa.

Estou gripado.

Doe a garganta. (É verdade!)

Mas nada me satisfaz.

Lavarei a louça.

Criarei vergonha na cara.

Vou fazer um regime.

Vou terminar minhas resenhas.

Vou ouvir menos Talking Heads.

Vou fazer.

Vou ler.

Vou escrever.

Vou me esforçar.

Vou ser.

Vou sim.

Vou.

Eu vou!

Eu vôo…

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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