REFLEXÕES SOBRE O SER PROFESSOR

RESENHA SOBRE O ARTIGO: Abordagem autobiográfica na formação do professor. KIECKHOEFEL, Leomar. Artigo – IESAD, 2010.



Esse artigo tratou de um tema que para mim era novidade, mas que segundo o autor, professor Leomar Kieckhoefel, surgiu no final do século XIX na Alemanha, mas que passou a ser usado com mais freqüência entre as décadas de 1920 e 1930 nos EUA: o uso da auto-biografia na formação do professor. A princípio a idéia parece simplória demais. O que tem a ver a minha formação teórico-profissional com a minha autoformação enquanto ser humano?

Nunca havia pensado no viés da minha autobiografia na minha formação docente. Na verdade lendo percebi que essa visão era fruto da idéia dominante surgida no mundo de outrora, onde o Eu pessoal era totalmente diverso do Eu Profissional. Mas lendo esse artigo, pela primeira vez comecei a questionar alguns aspectos da minha formação e inclusive uma pergunta (ainda sem uma resposta pronta) surgiu no decorrer da leitura: Por que decidi me tornar um professor? Nessa resenha vou destacar alguns pontos dessa leitura que me fizeram pensar um pouco mais sobre o assunto.

De acordo com o artigo lido, antigamente acreditava-se que o professor precisava ter uma postura profissional adequada na sala de aula, que deveria ser capaz de deixar do lado de fora os seus problemas, os seus dilemas pessoais, os seus traumas, enfim, o professor deveria ser, enquanto dentro da sala de aula, um ser superior, um ser perfeito, um ser isento de qualquer influência externa ou mesmo interna (psique). Contudo, com é fácil observar isso não funciona na prática. Se estiver preocupado com o fim do mês que se aproxima e com uma conta no banco que não terá dinheiro pra pagar, isso fatalmente vai influenciar o trabalho do professor.

Outro ponto interessante do artigo é a questão da formação continuada. Segundo o professor Leomar “os professores que realmente estão comprometidos com o processo educativo passam por uma busca incessante de realização profissional. Dessa maneira, buscam a formação continuada para que as necessidades de seus alunos possam condizer com a sua prática, ou, vice-versa”. Assim o aperfeiçoamento do professor deixa de ser apenas algo a ser feito em busca do sucesso profissional ou aumento salarial e passa a ser a busca pelo sucesso do aluno, o alvo a ser atingido é o aprendizado do educando. Exemplo disso eu vejo na minha própria formação. Da primeira vez que tive alunos com dificuldades de aprendizagem fui atrás de material que me instruísse no sentido de fazer esses alunos melhorarem. Isso serviu tanto para meu crescimento profissional quanto para que esses alunos recebessem o conteúdo da forma mais adequada a eles.

Um viés interessante a se utilizar, que a meu ver não escapa dessa visão autobiográfica, são os professores que tivemos. Creio que mais do que conteúdos, os professores ensinam atitudes. Então por vezes muito do que somos hoje reflete o que vimos no passado, em nossos dias de aluno. Falo isso tanto no sentido positivo, quanto negativo. Lembro de professores que tive que me ensinaram a ser um mestre melhor. Ensinaram-me a como não ser um professor. Por outro lado agora que analiso minha vida pregressa lembro-me de fatos pungentes protagonizados por professoras inesquecíveis.

O professor Kieckhoefel lembra ainda em seu artigo as mudanças que passou a função de professor, a construção do perfil desse profissional, da sua identidade e conclui na página 37

Ser professor é algo muito maior do que ser um mero profissional, de qualquer área de atuação, disposto a trabalhar para receber um salário no fim do mês, esquecendo os problemas quando chega em casa. O ‘ser professor’, quando comprometido com sua profissão, é um sujeito que não esquece dos problemas como num simples apertar de botões. Ser professor exige ‘identidade’, ‘vocação’ e ‘significação’ daquilo que se busca oferecer à sociedade por meio da profissão. (Kieckhoefel, 2010)

Em outras palavras pode-se dizer que o professor é fruto não só da universidade que cursou, do aperfeiçoamento constante que fez ao longo da vida, mas também da pessoa que ele é. Conduta essa que não vemos como exigência sine qua non em outras profissões. Um jogador de futebol, por exemplo, não importa muito sua personalidade fora das quatro linhas do campo, desde que dentro do gramado ele faça muitos gols. Da mesma forma um pedreiro, se o mesmo for capaz de levantar paredes, seu patrão não há de se interessar sobre a vida familiar do pedreiro. Com a educação é diferente. Não estamos lidando com matéria morta (tijolos), nem com lazer (futebol), mas sim com a formação de seres humanos. Então o grau de exigência é maior.

Apesar disso reconheço que há uma linha que une esses três profissionais citados. O dom. Isso diferencia o craque do bom jogador. Isso torna diferente o simples operário da construção do pedreiro-artista. E isso diferencia também o professor do pseudoprofessor. Não é apenas técnica, é dom, é arte.

Por fim, acredito que a análise dos sujeitos que somos, do quanto ainda precisamos aprender, de nossas limitações, nos ajude de fato, na construção de um ser pensante melhor estruturado e apto para aprender. Em outras palavras a construção da identidade de cada professor, passa por essa autodescoberta. Assim acho extremamente útil o uso desse método de autoformação. Existe em cada um de nós um ser melhor, mas ele precisa ser lapidado. E às vezes no cotidiano corrido que temos acabamos não tendo tempo de olhar para dentro de nós mesmos. Um erro que impede um progresso maior.

Já ouvi um adágio que apregoa: Mais do que profissionais, o mundo precisa de amadores. Concordo. Amadores seriam os Professores que amam ensinar, os Professores que se amam primeiramente, que se aceitam e que se compreendem. Esse tipo de pessoa, nós só conseguimos ser quando encaramos o mundo com uma visão mais holística, mais completa. Olhamos para dentro, Olhamos para trás, para a história de cada um de nós e assim vamos construindo o que somos ou seremos: seres pensantes, aprendentes e ensinantes.

Tiago Carpes do Nascimento.

Jaraguá do Sul.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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5 respostas para REFLEXÕES SOBRE O SER PROFESSOR

  1. tiago, meu caro,
    quanto tempo!

    muito bom voltar aqui ao teu blog!
    muito legal te ver no twitter de novo =D

    gostei de tuas reflexões sobre isto que fazemos – ou tentamos – de ser professor. importante refletirmos constantemente sobre isto.

    abraço grande!

    • Tiago disse:


      Realmente ser o que somos não é pra todos.

      Soube que tem um blog de aniversário hoje, verdade?
      Depois vou dar uma passadinha lá…

      Outro abraço grande pra ti.

  2. Graça Carpes disse:

    Parabéns, mestre! Bom te saber assim.
    Primo, obrigada por seu comentário.
    dias 06 / 22 e 26 estão vagos no blog Manufatura. Escolha um
    dos dias p/ postagem e entre em contato com Rorigo D.
    rodrigodomit@gmail.com.
    Bem vindo!
    🙂

  3. Leomar Kieckhoefel disse:

    Olá Tiago,

    Congratulações pela publicação. Os professores precisam acreditar na ousadia do seu pensar e publicar o que pensam, aprendem, pesquisam e experienciam… Mostrando-nos, em diferentes momentos de nossa vida, temos condições de confrontarmos – no bom sentido – os diferentes eus que habitam em nosso ser… aprendemos com isso a nos humanizarmos e a vermos o mais dentro de nós, caminhando, sobretudo, para a essência daquilo que consideramos realmente valer a pena para nos tornarmos cada vez mais felizes. Grande abraço e boa semana!

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