DISCURSO DE FORMATURA

Senhor diretor, demais componentes da mesa, formandos e convidados, Boa noite.

“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia…
e se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.”

(Fernando Pessoa)

Sei que é “cult” citar Paulo Freire (dá impressão de educação engajada, dá ao orador um ar de educador ativista) e eu deveria citá-lo é bem verdade, mas acho que Pessoa tem muito a nos ensinar. Muito mais do que costumeiramente imaginamos. A educação não se faz apenas com teoria, engajamento político, práticas inovadoras, mas também com poesia. Paulo Freire incluiria aqui, amor.

“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo”.

Em 2006 quando aqui chegamos acredito que estávamos entrando nesse tempo. Buscávamos novos rumos para nossas vidas. Alguns buscavam sua primeira graduação, aquela que lhes daria a libertação, ou as asas que almejavam ter. Outros vinham para a segunda faculdade buscando novos rumos para a carreira, desiludidos com sua situação momentânea. Havia também aqueles que estavam iniciando a terceira, mas ainda não haviam terminado a primeira. Gente de todos os tipos, uma massa heterogênea. Cada um com suas razões, com seus pontos de vista, com suas idéias pré-concebidas, mas mais que isso: com sua força de vontade e anseio de abandonar as roupas usadas.

E acredito que fomos felizes nessa jornada. Apesar de que nem todos os que começaram concluíram, quem conseguiu chegar aqui hoje provou que de fato a vontade de fazer a travessia superou todas as barreiras.

Não foi um caminho fácil de se trilhar, é importante que se diga. Houve espinhos, sob a forma de projetos e práticas pedagógicas, artigos complicados, “estatística”. Sim, de fato não foi “fácil demais”. Mas superamos. Os mesmos projetos que nos deixavam de cabelo em pé transformaram-se em alegria. Viraram belas fotos que ilustraram nossas socializações. E todos nós aprendemos muito com isso. Uns com os outros. Unidos. Amigos.

Aliás, esse é outro aspecto dessa travessia que Pessoa nos fala.

“(…) e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares”.

Podemos propor a seguinte paráfrase: “esquecer os velhos caminhos que nos levam sempre as mesmas pessoas”. Conhecemos pessoas novas. Fizemos novas amizades. Algumas talvez estejam se encerrando agora. Seria demais querer que todos ficassem “comprades” até o fim dos dias. Algumas amizades daqui por diante vão se resumir a um recadinho no orkut, um e-mail respondido com carinho e nostalgia, um bom dia efusivo no supermercado, quem sabe até um convite pra alguma balada. Mas depois, com o correr dos anos, os e-mails vão rarear, os telefonemas também e o que sobrará serão apenas os retratos, os bons momentos que passamos juntos.

Quem sabe um dia uma netinha revirando meus armários encontre uma foto dessa noite. Depois de rir um pouco dos nossos “modelitos” ultrapassados ela vai perguntar: quem são esses? Pode ser que seja só ali que vamos de fato parar e refletir sobre esses anos. Refletir no bem que fizemos uns aos outros. Em como foi gostoso esse tempo. E como foi curto também. (pausa)

Bom, mas deixe que o futuro nos torne introspectivos. Hoje mais do que melancólicos, queremos ficar alegres e comemorar. Afinal de contas fizemos a travessia. Já não ficaremos para sempre a margem de nós mesmos. A margem da sociedade. A margem nenhuma. Estamos sim é bem no centro.

Professores. Educadores. Quanta responsabilidade hein? Em 2006 nem todos tínhamos experiência em sala de aula. Eu mesmo só havia entrado numa sala de aula como aluno. Mas agora, não há nenhum de nós que nunca tenha tido esse momento maior de mestre. Aprendemos e agora vamos ensinar.

Sei que é um lugar comum dizer que o futuro se constrói com educação. Mas vou repetir isso. Minha profissão não teria sentido se eu não acreditasse de fato nisso: O futuro se constrói com educação. E educação vai além dos livros, vai além daquilo que o governo deveria fazer e nem sempre faz. Educação vai além do salário. Educação é paixão. Educação é poesia. E como já disse, excede a relação teoria e prática.

Sobre teoria e prática já disse o educador holandês Joannes van Snepscheut “Na teoria, não há diferença entre teoria e prática. Mas na prática, tem”.

Vemos isso em nosso dia a dia agora. Concluímos o primeiro estágio de nossa formação acadêmica. Fizemos uma bela travessia. Mas isso só nos deu a teoria. A prática vem com o passar do tempo. Convivendo diariamente com as quintas-séries da vida, com os “terceirões”, tendo embates com ATPs pré-históricos em nossas escolas, enfim. A prática vem com o passar do tempo, com calma, sem pressa. Podemos nos dar a esse luxo. Ou pelo menos nessa noite.

A responsabilidade que pesa sobre nossos ombros só não é maior do que a beleza da função que desempenhamos. Outro dia um aluno da sexta série me disse uma frase que guardei com carinho: professor eu nunca tinha gostado muito dessas histórias antigas, mas sabe que se a gente prestar atenção assim até que é bem legal…

Bem legal. Um elogio enorme pra mim. Sim, parece pouco, mas nós professores precisamos aprender a nos contentar com esse “pouco”. Não vamos esperar que o governo nos elogie que a direção nos homenageie nada disso. Nossa fonte maior de recompensa deve ser o aluno. Cada nota dez me enche de alegria. Cada questão respondida corretamente embevece meu ego. Cada trabalho feito com capricho me enche de orgulho. A gente precisa aprender a se contentar com o reconhecimento dos nossos alunos. Precisamos ficar felizes com o seu aprendizado. Já que foi essa a profissão que escolhemos.

Falando da travessia, devemos agradecer a todos aqueles que nos ajudaram a concluí-la. Nossa família, nossos cônjuges, nossos amigos, nossos professores, aliás, todo o corpo administrativo do curso tanto aqui como em Indaial, que sempre procurou dar todo o apoio para que essa experiência que por ora encerra-se fosse o mais indolor possível. Então a todos que de uma forma ou outra propiciaram esse momento, meu muito obrigado em nome do todos os formandos.

E a nós formandos, um último detalhe. Essa travessia que fizemos juntos não foi a travessia final. Ainda quero ouvir noticias de vocês em cursos de mestrado e tudo o mais que sei que vocês podem! Como diria Obama: YES WE CAN! E lembrem-se das palavras de Churchill: “Nunca, nunca, nunca desistam!”

Obrigado.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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2 respostas para DISCURSO DE FORMATURA

  1. Aline Pacheco disse:

    Tiago, meu filho!
    Que lindo que ficou seu discurso!!!!
    Juro, gostei muito! Ficou muito bom! Suas citações de Fernando Pessoa, ficaram perfeitas. E o final… não poderia ter sido melhor!
    Imagino que deva ter sido muito aplaudido. Eu o teria feito de pé!
    Parabéns por essas belas mãos que vc tem!
    Deve mesmo ser um ótimo professor.
    Sucesso agora como formado.
    Um beijo.

  2. cara, que discurso bem feito!

    parabéns!

    adorei a parte sobre fernando pessoa e não paulo freire. rsrs

    grande abraço!

    ah, tem escrito sobre livrinho do manoel ricardo de lima, lá no meu blog.

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