Eu não sou o Superman… (Túnel do Tempo)

Em tempos de gripe suína, nada como relembrar uma desgraça passada.

Estou fadado a aprender a viver sem a mão direita… Vai ser só por uns tempos, mas deixa eu dramatizar um pouco, me fazer de vítima…

Eu sou culpado, mas e daí? Concedo-me uma licença poética, provisória, assim como minha habilitação e habilidade como piloto de Moto GP…

Trafegava eu pela BR 280 na tarde de sábado a mais de 100 Km por hora. Atrasado para um curso vespertino ia costurando entre o tráfego com minha motocicleta negra. Um bólido adolescente. Um The flash que vestia preto, ou quem sabe um Batman voador, mas sem dúvida, infelizmente não um homem de aço, ou pelo menos não inteiramente.

Sabe o que aquelas malditas tartarugas fixadas em cima das faixas duplas querem dizer? Eu sabia, eu sei, mas nunca me importei muito… Ultrapassagem proibida!

Assim depois de ter “ganhado” segundos preciosos com uma duzia de ultrapassagens perigosas, várias das quais tendo apenas alguns milimetros a separar-me do carro da esquerda e outros tantos separando-me do da direita, resolvi arriscar-me uma vez mais e desafiei tanto o meu bom senso quanto a piedade divina, a teoria do caos, a lei da gravidade e principalmente as leis do código de trânsito brasileiro e avancei para a pista da esquerda mesmo estando em faixa contínua. Contudo, achei arriscado e resolvi voltar, na reentrada pulei por sobre um das benditas tartarugas e no encontrão que se seguiu redescobri outra importante lei física: DOIS CORPOS NÃO OCUPAM O MESMO LUGAR NO ESPAÇO.

Caí, deslizei pelo asfalto duro e áspero por alguns metros e momentos que me pareceram eternos, mas que não devem ter excedido a barreira dos trinta metros e pude ali constatar que meus compêndios sobre física que apregoavam que um corpo tende a permanecer em movimento a menos que uma força externa aja sobre ele também estavam corretos. No meu caso a força foi o atrito. O atrito do meu jeans com o já supracitado asfalto.
Meus senhores eu não deveria estar aqui escrevendo isso. Antes eu deveria era estar nesse momento na igreja. Sim. Vestido com meu melhor terno, cabelo engomado talvez, um ricto selvagem deformando meu sorriso e as mãos geladas fortemente apertadas de encontro ao peito. Um peito frio. Frio e vazio. Em cujo interior já não mais se ouvissem as compassadas batidas desse jovem e louco coração… Deveria ter morrido. Mas não foi dessa vez. Ainda não cumpri totalmente o meu destino talvez. Quem sabe?

No ínicio deixei no ar a indagação de se não seria eu talvez um pouco Super Homem. Deslizei pelo asfalto por um longo trecho, mas meu corpo não declara isso. Foi como se eu tivesse flutuado, não existem escoriações visíveis onde deveriam haver. Explicações? Algumas…

Meu maninho sempre dizia quando saio de casa: Vá com os anjos! Mas hoje saí sem me despedir e ele não disse nada, mas voltei pra casa pra pegar as luvas que já ia esquecendo e então dessa vez ele ao entregar-me as luvas disse esse “mantra”. Eu respondi: Amém. Então por que não dizer que esses anjos me levantaram milimétricamente do asfalto durante meu deslizamento???

Ou então, eu sou mesmo de aço. Quando passar por lá amanhã ou depois vou olhar pra ver se não ficou uma enorme vala no asfalto marcando o lugar onde fui meu próprio cobaia para realizar minhas descobertas científicas…

Penso nessas coisas agora. Tenho tempo e estou melhor, apesar da dor… Também tive tempo sentado no banco do hospital para onde fui encaminhado a fim de tirar o raio-x que mostrou a fratura no meu punho direito. Contudo lá o corre-corre das enfermeiras e o branco sujo das paredes não me davam muita margem para devaneios…

A dor é suportável. A dor no pulso, digo. A que me vai no ego vai demorar pra se tornar amena. Pois é, não há analgésico que tire a dor de saber que você não é imortal, intocável ou especial a ponto de nunca passar por isso ou aquilo. Eu não me considerava ingênuo como a maioria dos jovens. Aí está a maior prova da minha ingenuidade. Achava que não poderia acontecer comigo. Três jovens perdem a vida a cada a semana aqui no litoral norte catarinense, mas sempre pensei que isso não era pra miim. Hoje, por pouco não completei as estatísticas…

Como já disse não poderia estar aqui. Não deveria. Tive um pressentimento ruim na sexta-feira. Era o final do expediente e ao me despedir de um colega tive a impressão que o nosso: Bom final de semana, até segunda-feira! era falso e não se cumpriria. Fui pra casa pensando naquilo, será que ele vai morrer? Á noite eu sonhei com ele, com sangue, com ônibus e morte. Juntando isso ao pressentimento do dia anterior orei para que Deus protegesse meu colega. Que ironia. Deveria era ter orado por mim…

Ao meio-dia desmarquei uma viagem que faria de ônibus para o sul do estado com um grupo de pessoas da minha igreja. Estava cansado, com um pouco de febre, garganta inflamada, um resfriado qualquer. Depois lembrei do sonho e pensei que tinha feito a coisa certa. E pode ser que tenha realmente…

É difícil escrever mais…

Minha mão está cansada. Coitada, trabalhar sem a companhia da sua mão direita realmente é uma tarefa árdua… Mas vou me acostumar. Vai ser por pouco tempo. Na segunda-feira coloco gesso, até lá repouso apenas. Mas queria compartilhar esse momento com vocês meus queridos amigos. Pergunto-me se alguém se lembraria de mim se por acaso eu tivesse mesmo falecido.

Passei por isso a poucos meses. Perdi uma amiga virtual. Ela sempre estava no msn, no orkut. E de repente sumiu. Dias depois notei mensagens póstumas de conhecidos seus no scrapbook. Fiquei triste e pensativo. Como pude não ter percebido? Mas é assim mesmo, do amanhã nada sabemos. E mesmo o hoje, quão insondável é…
Sou culpado. Admito. Mas também sou vítima. Nem sempre a soma dos catetos é igual ao coeficiente exato da hipotenusa. Em tudo há falhas, buracos, trincas… assim como no meu punho direito. Ai Que DOR!!! Ah, a motocicleta passa bem. Perdeu grande parte das suas peças quebradas e teve seu lado esquerdo quase que totalmente lixado, mas o motor respondeu obedientemente á primeira batida no pedal… Pelo jeito o único reclamão aqui sou eu…

30/09/2007  (retirado do meu blog no GloboOnliners que será extinto nesse mês…)


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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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