EDUCAÇÃO em FOCO (Túnel do Tempo)

Estava como sempre faço, lendo com um pé atrás a edição dessa semana da revista Veja e me surpreendi com a entrevista dada pelo Ministro da Educação Fernando Haddad à jornalista Mônica Weinberg. Em tempos de crise na educação ele vem com uma proposta que a primeira vista parece coerente e aplicável. Três pontos são por ele destacados na entrevista:

• Diretores escolhidos pelo mérito e não por interesses políticos;
• Envolvimento da família no processo educacional;
• Valorização dos professores
.

Sucinto, coerente, aplicável, mas simplista. Vamos à análise desses pontos e veremos como se confirma a teoria de que o governo sempre opta pelo simples & prático e que no fim não passa de demagogia.

Quem trabalha na área sabe como é importante ter na direção da escola pessoas competentes que realmente entendam do assunto. Eu vejo muito diretor mal preparado que se acha chefe dos professores e que usa da sua pseudo-autoridade para aparecer. Estão longe de serem realmente profissionais da educação, são na verdade mercenários a serviço dos seus próprios interesses. Contudo a forma que Haddad propõe para se coibir essas situações seria apenas um questionário na fase pré-seleção. Não creio que essa seja a solução. A meu ver, o que deve ser feito é criar maneiras de policiar a atuação dos profissionais enquanto desempenham suas funções, não antes, mas durante. E que as ações que representem um desvio do padrão sejam severamente punidas. Educação de qualidade começa com uma boa administração.

A questão da família também deve ser abordada com mais atenção. Que falta envolvimento todo mundo está cansado de saber. Os pais estão passando para a escola toda a obrigação de educar os filhos. E como se sabe, há um limite. A escola é uma instituição criada para transmitir o saber científico. Noções de comportamento, vivência em sociedade, respeito ao próximo, higiene pessoal, alimentação saudável devem ser aprendidas em casa. Ou seja, a escola tem gasto muito tempo desempenhando funções que não são suas. Assim quando chega o fim do ano o que se vê são alunos que tiveram apenas dois terços do conteúdo que estava previsto no início do ano e que aprenderam de verdade apenas um terço desse. Quer dizer, um terço de dois terços de um total que mesmo inteiro não é suficiente. É um resultado muito insatisfatório.

Mas e agora? O que fazer para devolver para a família o seu papel? Eu estou aqui falando do ensino público. Quem estuda em escola pública? Filhos das classes menos favorecidas. Pra mim não existe classe média. Ou se é elite ou não se é! Pobre não estuda em escola de rico e vice-versa, salvo, claro as exceções. Assim torna-se necessário recorrer mais uma vez a Marx: “As relações de produção é que determinam as relações sociais”. Por que a família passou a bola pra escola? Porque foi necessário. Eu estou falando aqui da minha realidade, daquilo que vejo ao meu redor. Talvez em outro lugar seja diferente, talvez se eu analisasse isso do alto de um condomínio de luxo no Morumbi em São Paulo eu tivesse uma visão diferente. Talvez. O fato é que a família tal como a gente conhece está mudando. Aquele núcleo familiar pai-mãe-filhos em muitos casos deixou de existir. Temos hoje crianças que vivem com os avós, outras que vivem com a mãe e o amigo da mãe, outras ainda com os tios (Será influência das revistinhas da Disney?). E mesmo nas famílias que ainda tem a estrutura tradicional são raras às vezes em que as partes desse esqueleto estão juntas. O mundo moderno impõe um ritmo forte às relações sociais. Agora papai e mamãe trabalham fora e só tem tempo de estar com os filhos nos finais de semana. Assim o que fazem? Exigem a criação de creches em período integral e desde a mais tenra infância dos filhos delegam suas funções de pais para as “tias”. À medida que o tempo vai passando cada vez mais eles se escondem atrás das suas vidas e repassam para a escola a obrigação de criar seres humanos. A escola não foi feita para isso. A escola foi feita para educar seres humanos.

Assim indago: Como o ministro da educação vai fazer para devolver o papel da família a ela? Será que vai aumentar o salário que o papai recebe deixando assim a mamãe livre para cuidar dos filhos? Poderiam me chamar de machista, mas não sou. Pode ser o contrário. Paguem as mães, liberem os pais. Mas no fundo quando eu falo em educação familiar tenho as duas figuras em mente. Pai e mãe.
E agora, qual será a solução do ministro?

O terceiro ponto é ainda mais polêmico. Na entrevista ele diz textualmente que “boas escolas conseguem dar aos professores certos horizontes na carreira”. E logo depois ele diz que nem sempre isso significa um sentido financeiro. Eu concordo que um professor que ganhe bem, mas que não tenha mais o “tesão” não vai render nada. É preciso sim motivar o professor de formas outras que não materiais. A valorização vai além do retorno financeiro. Eu acredito que não há salário que se compare ao caso, por exemplo, de no futuro eu encontrar um ex-aluno na rua e receber um caloroso abraço em agradecimento aquilo que eu tenha ajudado ele a conquistar. Isso é reconhecimento. E ter um lindo horizonte também é saber que eu posso entrar tranquilamente na sala de aula e dar a minha aula sem correr o risco de ser agredido por um bandido que eles insistem em chamar de aluno. Conheço professores amigos meus que tiveram sérios problemas com adolescentes que não iam à escola estudar. Iam apenas porque eram obrigados. Um aluno desse tipo basta para acabar com a sua programação de aula. E você saber que naquela determinada sala não irá conseguir ensinar nada naquele dia tira completamente a sua motivação.

Outro fator motivacional importante são os recursos postos á disposição dos professores. Todo mundo está careca de saber que se aprende melhor usando diferentes sentidos. Chega de aulas expositivas maçantes; a garotada quer e merece coisas novas. Chega de longas explicações desenhadas a giz em um quadro-negro; tem muito professor alérgico a pó de giz. Mas na maioria das escolas este ainda é o método padrão. Os recursos que o governo disponibiliza estão muito aquém do ideal.

Não obstante as dificuldades os professores poderiam de certa forma deixar esses problemas de lado no fim de semana e voltarem na segunda-feira mais animados. Mas para que isso acontecesse seria preciso o professor ter o que fazer no dito fim de semana. Agora, como ir ao cinema com a namorada sem grana? Como passear na praia com a namorada sem namorada? E como ter namorada sem ter um carro? E como ter um carro ganhando salário de professor? Estou brincando é claro, mas a situação é similar a essa. Falta dinheiro. Professor que se preza estuda. Faz cursos. Compra livros. Vai ao cinema. Freqüenta museus. E tudo isso gera custos. E a ausência disso tudo desmotiva. No dia em que eu me obrigar a entrar em sala de aula e passar apenas o conteúdo do livro didático eu desisto de ser professor. Precisamos sempre de algo mais. E esse algo mais senhor ministro da educação também envolve dinheiro. Quer educação de qualidade? Pague por ela.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
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