O Cristão e a Cidadania

Tenho prazer e alegria em ser um evangélico. Possuo convicções fortes acerca da minha fé, e ao contrário de muitos companheiros que se acham inteligentes e cultos, a fé em Cristo para mim não é apenas uma forma de manifestar meu estado humano coletivo, crédulo e místico. A fé em Cristo para mim é fato vital. Extensão de minha alma. Indissolúvel. Sim, porque muitos são os que acham que “precisamos ter uma religião”, seja qual for, pois ela nos torna humanos. Esse pensamento para mim, é sinônimo de ateísmo, de incredulidade, uma tentativa de sociologizar ou filosofar a fé e, dessa forma, torna-la uma ciência como outra qualquer. Não vai demorar muito e vão inventar o curso superior de “Ciências Teosóficas ou Ciências Teológicas”, se é que já não existe por aí! Dado impressionante é que conheço pastores cujo procedimento na vida prática são o transparente exercício desse conceito. Homens que falam de Deus, porém não o conhecem, senão por uma construção acadêmica desenvolvida no interior dos seminários, que muitas vezes destroem a pureza da fé genuína. Dissecam a essência de Deus transformando-o em um mero objeto de estudo, utilizado depois para o exercício não mais da “vocação” pastoral, mas da “profissão” de Pastor, apropriando-se o agora fundamentado eloqüente de uma certa vantagem de conhecimentos para atrair, com o ônus dessa vantagem aplicada nos discursos (jamais sermãos) e com intenções capitalistas, a fé dos indoutos, ao invés de fundamentar-lhes ainda mais a fé pura com o compartilhamento das evidências históricas que lhe foram acrescentadas.
Enquanto isso, aqueles que conservam a pureza da fé, a submissão e a humildade do início de tudo, esperam por milagres, curas, maravilhas e manifestações de graça, e com razão esperam por isso, porque essas são as verdadeiras promessas para os penitentes, os que se humilham diante dos mistérios de Deus, ao invés de investigar-lhe explicações científicas e vestígios arqueológicos.
Porém, a despeito dessa minha firme defesa à pureza da fé, e ao distanciamento da ciência quando usada para dissecar Deus – e nesse ponto vejo a ciência como ferramenta usada de forma equivocada – não sou a favor de que o exercício da fé pura seja sinônimo de ignorância da realidade social no qual o cristão se insere. Acredito na cidadania, acredito na inteligência, e defendo a busca da razão e do equilíbrio para o exercício da vida social entre cristãos e não cristãos.
Crente não pode nem deve ser burro, nem preguiçoso, nem despreparado, nem alienado, ou seja, desconhecedor de sua função, nem trapaceiro, nem enrolador, nem embromador, esses são comportamentos que se tornam comuns àqueles que vivem ao estilo “zecapagodinho” no seu modelo “deixa a vida me levar, vida leva eu”, e o preço a pagar por esse desleixo é caro, porque nunca serão promovidos nem observados para a promoção, e sim para a demissão. Por causa desse desleixo não se tornam importantes no lugar em que trabalham, mas sim perfeitamente dispensáveis. Sinto tristeza e decepção quando fico sabendo que em uma empresa, na hora do corte de gastos, entre os demitidos, havia um crente. Crente deve ser, acima de tudo, um lutador, um interessado no sucesso. O crente deve buscar ser conhecedor da profissão que exerce. Se mecânico, que seja um excelente mecânico; se balconista, que busque ser o mais competente; se lida com público, que seja tolerante e perfeito conhecedor de sua função e dos direitos daqueles que vai atender; se funcionário, que seja um exemplo de elemento coletivo, para o bem de sua empresa; se patrão, que invista na qualidade do relacionamento com seus empregados para que sua empresa seja irrepreensível entre as demais; enfim, ser cristão é uma constante busca pela qualidade do que fazemos, por um simples motivo: a recomendação de Cristo de que “vejam as vossas boas obras e glorifiquem a Vosso Pai que está nos céus”.
Hoje no Brasil estamos diante de um universo crescente de novos cristãos, porém, a qualitatividade dessa massa que enche os templos, é duvidosa enquanto desconhecedora de seu novo desafio. Deve essa multidão ser urgentemente informada de que a igreja não é apenas o destino final dos que jazem à margem da sociedade, dos abandonados e desprezados que chegam apenas para ser atendidos e sarados e continuar na margem à espera da morte e da redenção. Mas essa multidão dos novos devem ser ensinados que a fé em Cristo tem a função de nos fazer apresentar a glória de Deus à sociedade que ainda permanece incrédula, e isso só será possível quando for implantado no coração dos novos que chegam, o desejo de emergir da margem, da miséria e da desgraça, para buscar a graça de Deus que nos torna em vasos para honra, no lugar onde pisar a planta do nosso pé.
Se nos falta cultura para compreender a sociedade e exercer uma profissão em sua plenitude, nada nos impede de buscar essa cultura. Ela é alcançável! A busca pelo sucesso como cidadãos e trabalhadores, profissionais e profundamente entendidos naquilo que fazemos, só é entendida como “vaidade” pelos preguiçosos que se aquecem sob o cobertor malcheiroso da religiosidade. Vejo dois tipos de cristãos: os que sentam e esperam, e os que levantam e buscam. Mostremos ao mundo a força do evangelho de Cristo, em fazer daquele que antes era um derrotado, em um vencedor de batalhas, um desafiador de obstáculos, um colecionador de triunfos. É assim que Deus espera que honremos o Seu Reino e que sejamos dignos de carregar sobre nossos ombros, de forma aceitável diante dele, o título de “cristãos”.

(Sergio Lopes)

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
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Uma resposta para O Cristão e a Cidadania

  1. flaviosiqueira disse:

    Gostei do que escreveu. Se entendessem que fé é essencia e não ciência, não veriamos muitas aberrações que existem por aí. Hoje mesmo postei algo sobre fé no meu blog. Se puder dá um pulinho especialmente nesse link :http://flaviosiqueira.wordpress.com/2008/10/29/porque-nao-gosto-de-religiao/
    Abraços!

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