Domingo

Domingo pela manhã.

Acordo de repente.

Nos olhos um fiapo de sono, os restos de um sonho que não se resolveu. Nos ouvidos barulhos matinais normais. Ao longe um rádio, uma música, uma motocicleta passando no rua e aqui perto o barulho da descarga, as imprecações de uma mãe e o choro de um bebê.

Não quero acordar.

Me remexo na cama. Ainda com o sonho na mente. Não quero que ele se vá. Não quero abrir os olhos, ainda não. O sonho é triste, DEIXA EU SOFRER UM POUCO MAIS?! A criança calou-se, por certo ganhou o que queria… A mãe amuada cedeu. Capitulou. Cedeu o seio pro menino mamar…

Me remexo na cama.

Uma cama estranha.

Uma cama que nem cama na verdade é.

O sonho que tenho me arrasta da realidade pra ele, e estou indo pra casa deitado aqui. De repente um cachorro late mais alto, alguém tosse por perto aqui nessa rua e eu abro os olhos no ápice do sonho, no pior do pesadelo, no auge da dor, no pico do desespero.

Acordo.

Abro os olhos.

Fico feliz por ainda estar aqui.

Fico peliz por acordar sozinho (ninguém vai precisar jogar água fria em mim)…

Domingo de manhã.

A cidade é diferente, mas não me é estranha. Toda cidade de humanos se parece nos primeiros minutos da manhã. O leiteiro passando, a padaria se abrindo, as vovós sorrindo e os maconheiros pra cama indo.

Domingo de manhã.

Estou no Paraíso; por certo encontrarão mais alguns corpos nessa manhã. Aqui é sempre assim… Cidade grande. Diferente. Normal. Os mesmos sons matinais. O mesmo barulho da escova de dentes, da água escorrendo na pia, do tic-tac do relógio na parede.

Tudo igual.

Até eu sou igual.

Mesmo eu já estou levantando, lavando o rosto…

Bosta!

Esqueci de trazer a escova de dentes…

Enfim. Domingo. Mais um.

Uma camioneta com o cano de descarga estourado passou. Deveriam proibir isso tão cedo…

Uma espinha amarela rídicula nasceu no meu pescoço. Deveriam proibir isso aos domingos…

Minha namorada acorda, no outro quarto. Devíamos dormir juntos, ao menos aos domingos…

Domingo. Mais um.

Manhã de sol. Mais uma.

Motocicleta. Descarga. Tosse.

Bêbados, padeiros e soldados.

Mais uns, mais outros.

O domingo invade as casas, acorda os últimos sabatistas e põe um fim provisório na amplitude dos sonhos, no frio e violência da noite e nesses meus rabiscos.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões.
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Uma resposta para Domingo

  1. Adriana disse:

    Oi Thiago!

    Obrigada por sua visita no meu blog.

    Adorei este poema, me fez sentir dentro de uma animação japonesa era uma cena muito poética em que dois personagens congelavam de embaraço e se via um caminhão ao fundo anunciando a venda de algo. Sei que talvez para você não faça sentido, mas achei interessante comentar a imagem que assossiei. adorei as reflexões a cerca do que devia ser ou ter no domingo ou não.
    Muito bom!

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