DISCURSO DE FORMATURA 12 09, 2009
Posted by Tiago in ARTIGOS, VARIEDADES.Tags: discurso de formatura, educadores, Fernando Pessoa, formatura, História, professor
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Senhor diretor, demais componentes da mesa, formandos e convidados, Boa noite.
“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia…
e se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.”(Fernando Pessoa)
Sei que é “cult” citar Paulo Freire (dá impressão de educação engajada, dá ao orador um ar de educador ativista) e eu deveria citá-lo é bem verdade, mas acho que Pessoa tem muito a nos ensinar. Muito mais do que costumeiramente imaginamos. A educação não se faz apenas com teoria, engajamento político, práticas inovadoras, mas também com poesia. Paulo Freire incluiria aqui, amor.
“Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo”.
Em 2006 quando aqui chegamos acredito que estávamos entrando nesse tempo. Buscávamos novos rumos para nossas vidas. Alguns buscavam sua primeira graduação, aquela que lhes daria a libertação, ou as asas que almejavam ter. Outros vinham para a segunda faculdade buscando novos rumos para a carreira, desiludidos com sua situação momentânea. Havia também aqueles que estavam iniciando a terceira, mas ainda não haviam terminado a primeira. Gente de todos os tipos, uma massa heterogênea. Cada um com suas razões, com seus pontos de vista, com suas idéias pré-concebidas, mas mais que isso: com sua força de vontade e anseio de abandonar as roupas usadas.
E acredito que fomos felizes nessa jornada. Apesar de que nem todos os que começaram concluíram, quem conseguiu chegar aqui hoje provou que de fato a vontade de fazer a travessia superou todas as barreiras.
Não foi um caminho fácil de se trilhar, é importante que se diga. Houve espinhos, sob a forma de projetos e práticas pedagógicas, artigos complicados, “estatística”. Sim, de fato não foi “fácil demais”. Mas superamos. Os mesmos projetos que nos deixavam de cabelo em pé transformaram-se em alegria. Viraram belas fotos que ilustraram nossas socializações. E todos nós aprendemos muito com isso. Uns com os outros. Unidos. Amigos.
Aliás, esse é outro aspecto dessa travessia que Pessoa nos fala.
“(…) e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares”.
Podemos propor a seguinte paráfrase: “esquecer os velhos caminhos que nos levam sempre as mesmas pessoas”. Conhecemos pessoas novas. Fizemos novas amizades. Algumas talvez estejam se encerrando agora. Seria demais querer que todos ficassem “comprades” até o fim dos dias. Algumas amizades daqui por diante vão se resumir a um recadinho no orkut, um e-mail respondido com carinho e nostalgia, um bom dia efusivo no supermercado, quem sabe até um convite pra alguma balada. Mas depois, com o correr dos anos, os e-mails vão rarear, os telefonemas também e o que sobrará serão apenas os retratos, os bons momentos que passamos juntos.
Quem sabe um dia uma netinha revirando meus armários encontre uma foto dessa noite. Depois de rir um pouco dos nossos “modelitos” ultrapassados ela vai perguntar: quem são esses? Pode ser que seja só ali que vamos de fato parar e refletir sobre esses anos. Refletir no bem que fizemos uns aos outros. Em como foi gostoso esse tempo. E como foi curto também. (pausa)
Bom, mas deixe que o futuro nos torne introspectivos. Hoje mais do que melancólicos, queremos ficar alegres e comemorar. Afinal de contas fizemos a travessia. Já não ficaremos para sempre a margem de nós mesmos. A margem da sociedade. A margem nenhuma. Estamos sim é bem no centro.
Professores. Educadores. Quanta responsabilidade hein? Em 2006 nem todos tínhamos experiência em sala de aula. Eu mesmo só havia entrado numa sala de aula como aluno. Mas agora, não há nenhum de nós que nunca tenha tido esse momento maior de mestre. Aprendemos e agora vamos ensinar.
Sei que é um lugar comum dizer que o futuro se constrói com educação. Mas vou repetir isso. Minha profissão não teria sentido se eu não acreditasse de fato nisso: O futuro se constrói com educação. E educação vai além dos livros, vai além daquilo que o governo deveria fazer e nem sempre faz. Educação vai além do salário. Educação é paixão. Educação é poesia. E como já disse, excede a relação teoria e prática.
Sobre teoria e prática já disse o educador holandês Joannes van Snepscheut “Na teoria, não há diferença entre teoria e prática. Mas na prática, tem”.
Vemos isso em nosso dia a dia agora. Concluímos o primeiro estágio de nossa formação acadêmica. Fizemos uma bela travessia. Mas isso só nos deu a teoria. A prática vem com o passar do tempo. Convivendo diariamente com as quintas-séries da vida, com os “terceirões”, tendo embates com ATPs pré-históricos em nossas escolas, enfim. A prática vem com o passar do tempo, com calma, sem pressa. Podemos nos dar a esse luxo. Ou pelo menos nessa noite.
A responsabilidade que pesa sobre nossos ombros só não é maior do que a beleza da função que desempenhamos. Outro dia um aluno da sexta série me disse uma frase que guardei com carinho: professor eu nunca tinha gostado muito dessas histórias antigas, mas sabe que se a gente prestar atenção assim até que é bem legal…
Bem legal. Um elogio enorme pra mim. Sim, parece pouco, mas nós professores precisamos aprender a nos contentar com esse “pouco”. Não vamos esperar que o governo nos elogie que a direção nos homenageie nada disso. Nossa fonte maior de recompensa deve ser o aluno. Cada nota dez me enche de alegria. Cada questão respondida corretamente embevece meu ego. Cada trabalho feito com capricho me enche de orgulho. A gente precisa aprender a se contentar com o reconhecimento dos nossos alunos. Precisamos ficar felizes com o seu aprendizado. Já que foi essa a profissão que escolhemos.
Falando da travessia, devemos agradecer a todos aqueles que nos ajudaram a concluí-la. Nossa família, nossos cônjuges, nossos amigos, nossos professores, aliás, todo o corpo administrativo do curso tanto aqui como em Indaial, que sempre procurou dar todo o apoio para que essa experiência que por ora encerra-se fosse o mais indolor possível. Então a todos que de uma forma ou outra propiciaram esse momento, meu muito obrigado em nome do todos os formandos.
E a nós formandos, um último detalhe. Essa travessia que fizemos juntos não foi a travessia final. Ainda quero ouvir noticias de vocês em cursos de mestrado e tudo o mais que sei que vocês podem! Como diria Obama: YES WE CAN! E lembrem-se das palavras de Churchill: “Nunca, nunca, nunca desistam!”
Obrigado.
TRABALHO DE GRADUAÇÃO 27 06, 2009
Posted by Tiago in ARTIGOS.Tags: Assembléia de Deus, GUARAMIRIM, História, História da Assembléia de Deus, História da Religião, História de Guaramirim, Movimento Pentecostal, Religião, trabalho de graduação
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Enfim consegui terminar meu trabalho de graduação do meu curso Licenciatura em História, entregá-lo e me livrar de um pouco de stress.
Aqui está o resultado.
Espero que ele passe pelo crivo da orientadora pra mim poder respirar ainda mais aliviado.
RESUMO: O relato do surgimento da Igreja Evangélica Assembléia de Deus no município de Guaramirim na década de 1930 é o mote central desse artigo. Trata-se de um relato baseado em pesquisa bibliográfica que efetuei e em depoimentos recebidos de um dos filhos do principal pioneiro dessa denominação religiosa. Para melhor situar o leitor, eu inicio com um breve relato da história do município. Depois vou relatando os fatos relacionados à Assembléia de Deus aos quais tive acesso. Ao final pretendo ter contribuído para trazer à luz, momentos marcantes da história guaramirense que, muitas vezes, passam despercebidos na atualidade.

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TRABALHADORES: DUAS ÉPOCAS DISTINTAS 06 06, 2009
Posted by Tiago in ARTIGOS.Tags: História, trabalhadores, revolução industrial, dia a dia, trabalhador na atualidade, história do pensamento político, marxismo, paper
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RESUMO: Esse artigo vai narrar situações do cotidiano de um hipotético trabalhador da época da Revolução Industrial, objetivando levar o leitor a traçar um comparativo com a situação da classe trabalhadora na atualidade e filosofar sua própria resposta à indagação: houve mudança?
Palavras chave: Trabalhador; Revolução Industrial; Atualidade.
1 INTRODUÇÃO
De acordo com Soltau (2009) após a Revolução Industrial “o trabalho que era executado pelo servo, passa a ser pensado como mão-de-obra assalariada”, em outras palavras estava criada a profissão “Trabalhador”. De lá pra cá muitas coisas mudaram, como era de se esperar. Muitos avanços na forma como os trabalhadores são tratados pela classe patronal e pelo sistema capitalista propriamente falando.
Para que venhamos a visualizar melhor, tecerei esse artigo como uma narrativa de um dia qualquer no cotidiano de um trabalhador do começo do século XVIII traçando comparativos com as situações da atualidade.
2 RELATO HIPOTÉTICO DO COTIDIANO DE UM TRABALHADOR DA ÉPOCA
Logo pela manhã Ele levanta. Antes de o dia clarear. Tem de estar na fábrica ás cinco da manhã, horário em que o diretor vai tocar o sinal para o início das atividades. Seria muito desaconselhável se atrasar. Há uma crise instaurada, pois sobra mão de obra e faltam postos de trabalho. Grande parte disso se deve ao fato de cada vez mais pessoas serem expulsas do campo devido à política de cercamento adotada pelo novo sistema que surgiu. Aliás, Ele é uma vítima desse sistema. Antes tinha a sua própria terrinha no campo, onde plantava nabo, aipim e cevada. Trocava o excedente com os vizinhos ou nas feiras que começavam a se tornar cada vez mais freqüentes. Já havia sido assim a gerações, mas ele sentia que algo estava mudando.
E como estava. Aquelas inocentes feiras, que pareciam trazer tantos benefícios no curto prazo, acabaram por se transformar em cidades. Os feirantes viraram burgueses, depois colonizadores do Novo Mundo e agora detinham os meios de produção. Não era de admirar que Ele trabalhasse na fábrica de um de seus antigos colegas feirantes. Mundo pequeno.
Sua função na fábrica é cortar pedaços de couro, que logo após irão ser transformados em sapatos. Ele ainda não sabe como isso é possível (e na verdade nunca vai saber), seu conhecimento do processo não vai além do estritamente necessário para desempenhar sua função.
Ele tem uma casinha que ganhou do patrão num dos subúrbios da cidade. Todos os seus colegas moram ali também. Recebem pouco, mal dá pra sustentar a numerosa prole. Mas o que se há de fazer? Saudades do campo, mas voltar como? O jeito é cuidar pra tudo não piorar. Ele sabe muito bem como isso é possível. Outro dia um primo seu foi condenado a morte por tomar parte num dos levantes do movimento dos Ludistas. Esses camaradas acham que a culpa de tudo está nas máquinas e por isso invadem as fábricas e quebram as máquinas. O governo tenta reprimir de todas as formas, já que a maior parte dessas fábricas pertence as famílias de integrantes do governo. Muitas pessoas são presas, mortas e feridas nos embates com a polícia. Fábricas são fechadas, funcionários demitidos, um inferno!
E ainda existem as greves. Imensas paralisações. Mas nada adianta. Os grevistas são demitidos e em seu lugar é escolhido um dos muitos desempregados que fervilham pelas ruas das cidades.
Revolução industrial? Avanço tecnológico? Isso era pra ser bom, mas Ele sabe muito bem que apenas alguns se beneficiam nesse processo. A grande parte da população apenas sofre… Oh destino cruel. Onde estão os ideais tão apregoados por aqueles malucos franceses de outrora? Cadê a liberdade? Se nem mesmo era possível escolher em que fábrica trabalhar. E o que dizer da igualdade numa sociedade onde tantos apenas sobrevivem e um punhado de “escolhidos”, como Calvino os descreve, vivem muito bem à custa do trabalho alheio? Sem falar que não existia fraternidade alguma entre as classes sociais. Boa parte disso devido ao ministro da igreja que tanto citava João Calvino (saudades do tempo em que o padre condenava o logro…).
Mas Ele vai sobrevivendo. Vê seus filhos crescendo. Sabe que terão o mesmo destino, mas talvez tenha de ser assim. Quem sabe não seria essa a vontade divina?
3 CONCLUSÃO
O nosso hipotético personagem aí de cima ficaria entusiasmado se vivesse um pouco mais para ter contato com as idéias de Marx. Sua sede de Liberdade, Igualdade & Fraternidade que se entrevê timidamente nessas linhas encontraria um eco perfeito na voz, ou nos escritos, de Marx e Engels, segundo Soltau (2009) para eles “as forças capazes de vencer e transformar o capitalismo estavam no próprio sistema. Cabia aos proletários transformar a sociedade buscando igualdade” Claro que seu entusiasmo não duraria tanto assim, mas pelo menos teria mais esperança no futuro.
Agora pensemos, será que mudou muito a nossa sociedade de lá para cá? Será que os anseios Dele não seriam os mesmos nossos? Será que a desigualdade social desapareceu? Será que hoje em dia vemos mais justiça social? Cabe a cada um de nós a analise fria dos fatos. Eu tenho a minha conclusão: mudaram os personagens, mudou-se o pano de fundo, mas as motivações, os sentimentos são os mesmos. Absolutamente!
4 REFERÊNCIAS
SOLTAU, André Marcos Vieira. Caderno de Estudos: História do pensamento político e econômico. Indaial: ASSELVI, 2009.
A REFORMA PROTESTANTE 05 03, 2009
Posted by Tiago in ARTIGOS.Tags: artigo, História, Reforma Protestante, Lutero, Martinho Lutero, 95 teses, Calvinismo, Anglicanismo, Catolicismo, Religião, História Moderna, Humanismo, Idade Moderna, Igreja, Renascimento, Guilherme de Orange, John Knox, Inquisição, Contra-Reforma, Capitalismo, paper
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RESUMO: A reforma protestante foi junto com o renascimento cultural o fator fundamental para a mudança de atitude que ocorreu na Europa e se transformou no divisor de águas entre a idade média e a era moderna. Nesse artigo vamos procurar relatar algumas questões inerentes a reforma. É claro que em virtude do trabalho abranger variados aspectos vamos talvez sacrificar a profundidade em prol da abrangência.
Palavras chave: Humanismo; Reforma; Idade Moderna.
1 INTRODUÇÃO
Segundo Santos (2008) a Reforma Protestante pode ser considerada, junto com o Renascimento, o prelúdio da Modernidade na Europa. Tal consideração ocorre porque esse movimento está intrinsecamente ligado à liberdade política e ao capitalismo. A marca que identifica esses dois movimentos é a instauração da liberdade humana: tanto a Reforma como o Renascimento foram produtos do Humanismo, onde estudiosos e teólogos tinham desejos de voltar no tempo e buscar na pureza da Antigüidade Clássica a origem para Renovação que o homem tanto desejava. Ou seja, era necessário que o homem voltasse ao seu passado para conseguir se libertar no seu presente.
Prossegue dizendo Santos (2008) que mesmo tendo o mesmo embrião filosófico/teórico, o desenrolar dos dois movimentos teve uma enorme diferença na sociedade que o criara: enquanto o Renascimento atingiu apenas as elites da sociedade (tanto econômicas como políticas e culturais), a Reforma alcançou toda a massa populacional européia: dos mais altos governantes até os mais simples camponeses, todos foram tocados por ela.
Partindo desses pressupostos pretendo nesse artigo delinear vagamente os efeitos da Reforma ou em outras palavras vou procurar definir quais foram as reações que essa ação coletiva causou.
2 CONTEXTUALIZANDO A ÉPOCA
Segundo Oliveira (2000) no início do século XVI, a Igreja atravessava uma das fases mais árduas da sua história. Ela já não era pequena, simples e pura como nos primórdios. Havia crescido. Com esse crescimento vieram também problemas profundos e prolongados. Alguns sacerdotes inescrupulosos julgavam-se donos da que outrora fora a causa do “Senhor”. Era necessária uma reformulação nos conceitos da velha organização. Uma faxina sem precedentes, a bem da verdade, uma reforma.
Em contrapartida o resto do mundo começava a despertar da letargia da era passada. Esse despertar se processou de forma tão extraordinária que foi necessária uma nova palavra: Renascimento. Segundo Oliveira (2000) o movimento renascentista, surgido no século XIV assumira toda a sua grandeza no final do século XV. Todas as faculdades da natureza humana haviam sido dimensionadas e todas as atividades humanas apresentavam grandes progressos. Vivia-se uma época de grandes conquistas.
Para que ilustremos essa fala, basta nos lembrarmos de Colombo descobrindo a América; Cabral aportando no Brasil; do tamanho exato da Terra sendo determinado; da descoberta do sistema solar por Copérnico, que revolucionou as idéias humanas sobre o universo. Também foi nessa época que Gutenberg criou a imprensa de tipos móveis. Graças a esses recursos as idéias se espalhavam mais rapidamente. A mente humana foi ainda mais despertada e fortalecida para futuros empreendimentos, um dos quais veio a ser a Reforma Protestante.
3 A REFORMA
Por viverem esse momento épico da história humana, muitos religiosos começavam a ver com maus olhos as atitudes antiquadas da Igreja. Com uma sociedade que começava a despertar para a existência do lucro o ascetismo da Igreja passou a não funcionar. Para Dauwe (2008) a Reforma era um movimento coerente com a nova sociedade que estava surgindo. Nesse ponto parece-me que ele quer dizer que foi fruto de uma necessidade muito mais econômica do que expressamente religiosa. Os burgueses queriam ter seus lucros vendendo seus produtos pelos preços que melhor entendessem, cobrando juros dos seus empréstimos e sem ter nenhum encargo de consciência. Outros historiadores como Oliveira (2000) defendem a idéia de que a Reforma foi puramente religiosa, que seu caráter econômico ou político foi somente entendido e utilizado muito depois do seu início, para o historiador, foi em 1512, enquanto lia a Bíblia Sagrada que Lutero se deparou com uma declaração revolucionária: “o justo viverá da fé”, passagem essa que lhe deu a idéia de que não era necessária a figura do clero como intermediário entre Deus e os pecadores. Sendo dessa forma, sua idéia original não passava de uma discussão teológica, não tendo necessariamente a função sócio-política que Dauwe crê vislumbrar.
De qualquer forma ambos os pontos de vista são equânimes em dizer que Lutero, o mentor da Reforma, não tinha pretensão de se opor à Igreja, muito menos criar uma nova religião (DAUWE, 2008). O que ele queria era mesmo reformar a velha organização medieval querendo para isso apoio do papa. Como a direção da Igreja não estava a fins de perder o status que tão bem lhe caia desde o início da Idade Média, Lutero foi desacreditado, combatido e posteriormente excomungado. Contudo, e eu acho que aí começa realmente a tomar corpo a função política da Reforma, o povo e principalmente os governantes locais passaram a ver na Reforma uma boa opção para libertar-se do jugo da Igreja. Dauwe deixa isso bem claro quando diz que “os príncipes germânicos perceberam que as idéias de Lutero eram um ótimo pretexto para tomar terras da Igreja e de seus inimigos” (2008, p. 59). Nessa mesma linha Oliveira (2000) complementa “Foi nesse clima de euforia que a partir de 1520 os ensinos reformistas de Lutero dominaram rapidamente a maior parte da Europa”.
Segundo Oliveira (2000) ao mesmo tempo em que Lutero brigava na Alemanha, Calvino contestava a Igreja em Genebra, Guilherme de Orange protestava nos países baixos, John Knox ia à luta na Escócia e o Anglicanismo de Henrique VIII dava um basta na influência da Igreja na Inglaterra. Quer dizer, inúmeros focos revoltosos surgiam por toda a parte. A Igreja não poderia ficar alheia a isso tudo. Contudo segundo Oliveira (2000) a Igreja se achava em estado de tal decadência, e os papas da época tão interessados na vida privada e desinteressados da religião que, por espaço de um quarto de século após o início do movimento reformador, pouquíssimas foram as medidas para reprimi-lo.
4 A CONTRA-REFORMA
Segundo Oliveira (2000) foi no ano de 1541 que a Igreja acordou por fim da sua aparente letargia e passou a empregar medidas mais severas na repressão ao protestantismo. Era o início do que foi chamado posteriormente de contra-reforma. Três foram os meios escolhidos para conter o avanço dos revoltosos: a Sociedade de Jesus, o Concílio de Trento e a Inquisição.
O propósito da Sociedade de Jesus era promover o progresso eclesiástico e lutar contra os inimigos da Igreja por todos os meios possíveis. Era trabalho incessante, num espírito de lealdade ao papa, lealdade essa inquestionável. (OLIVEIRA, 2000). Um dos métodos de operação bastante difundido da Sociedade foi de caráter político. Nos governos católicos os jesuítas passaram a inspirar devoção à Igreja e ódio ao Protestantismo. Esse caráter se viu de forma bastante clara nas Guerras Religiosas que irromperam por toda a Europa nessa época. Outro caráter da Sociedade era o de expandir as fronteiras da Religião catequizando povos pagãos. Foram eles que estiveram educando os índios brasileiros quando do início da exploração de nossa terra.
O Concílio de Trento foi destacado pelo fato de ter sido através do mesmo que a Igreja formulou uma declaração completa da sua doutrina. Embasando a sua batalha contra os dissidentes. Ao final desse concílio havia sido criado o Índex (lista de livros proibidos) e também reforçada a atuação do Tribunal da Inquisição (DAUWE, 2008).
A Inquisição, segundo Dauwe (2008) tinha a tarefa de investigar desvios de fé e também desvios de conduta dos súditos. De acordo com o site Wikipédia.com (2008 a) “Ao contrário do que é comum pensar, o Tribunal do Santo Ofício é uma entidade jurídica e não tinha forma de executar penas. O resultado da inquisição, feita a um réu, era entregue ao poder régio, muitas vezes com o pedido de que não houvesse danos nem derramamento de sangue”. De qualquer forma essa foi uma forma que a Igreja encontrou de desencorajar os fiéis a abandonarem a Fé Católica.
5 CONCLUSÃO
Podemos dizer então, que a principal das reações da Reforma Protestante foi a Contra-Reforma e suas medidas que afetavam a sociedade da época. É uma resposta correta, mas pode soar simplista. Então vamos destacar mais alguns pontos. De acordo com o site Wikipédia.com (2008 b) existiram outros efeitos.
O resultado deste movimento religioso é uma mais fervorosa observação dos princípios morais cristãos tais como eles estão expressos na Bíblia. Os movimentos de zelo religioso que têm lugar na Europa do século XVI são para ser entendidos no contexto do efeito multiplicador iniciado pela invenção da imprensa por Gutenberg. Se a bíblia não estivesse agora acessível a cada um, traduzida nas línguas e dialetos locais, compreensível aos Europeus, tal como ela começou a surgir no século XVI, tal zelo religioso não teria sido possível. Anteriormente ao século XVI, a bíblia era um manuscrito em Latim, (língua dominada por uma minoria) do qual havia poucas cópias, que se encontravam fechadas nos conventos e nas igrejas, lidas por uma elite eclesiástica. A grande maioria da população nunca a tinha lido. No século XVI, ela está disponível em grandes números e nas línguas e dialetos locais. Não é de admirar pois que a religião se torne um tema polêmico.
E segundo Dauwe (2008) houve outro rebento dessa época que pode ser destacado: O capitalismo. Diz ele que diversos estudiosos apontam uma relação muito estreita entre a ética desenvolvida pelos protestantes (principalmente por Calvino) e o desenvolvimento do capitalismo. Como mostrei no trabalho, razões existem para que se possa assim pensar. Libertando os homens da visão do lucro como pecado, o caminho natural foi a instauração do livre mercado e todas as variantes relativas ao referido sistema econômico.
Assim concluo voltando ao pensamento original, de que a reforma protestante, aliada ao Renascimento cultural foi a gênese da Modernidade. Como bem dizia Santos (2008) somente a Reforma Protestante conseguiria saciar a sede espiritual do momento – sede essa que não era sentida apenas pelos intelectuais ou príncipes, mas por todos. O que justifica sua enorme difusão. Apenas a Reforma poderia abalar (como de fato abalou) a mais rígida instituição feudal: a Igreja Católica. Assim, podemos dizer que o tão falado Renascimento Cultural, sozinho não poderia transformar o pensamento medieval em moderno. Dessa forma podemos dizer que a Reforma Protestante é a grande responsável pela mudança de atitude no pensamento e no modo de vida do mundo ocidental.
6 REFERÊNCIAS
DAUWE, Fabiano. Caderno de Estudos: História Moderna. Indaial: Ed. ASSELVI, 2008.
OLIVEIRA, Raimundo Ferreira de. História da Igreja: dos primórdios à atualidade. 4ª ed. Campinas: EETAD, 2000.
SANTOS, Ynaê Lopes dos. A Reforma. Disponível em <http://www.klepsidra.net/klepsidra6/areforma.html> Acesso em: 18 jun. 2008.
WIKIPEDIA.COM(a). Inquisição. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Inquisi%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em 18 jun. 2008.
WIKIPEDIA.COM(b). Reforma Protestante. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Reforma_Protestante>. Acesso em 18 jun. 2008.
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